Chapter Text
— Eu realmente preciso de uma bebida – Diego resmungou ao sair do quarto onde Grace havia instalado Five. O dia havia sido um caos do início ao fim. Quando eles descobrissem onde estava Harold, o filho da puta ia virar uma peneira antes que tivesse a chance de piscar.
— Acho que você está andando demais com o Klaus – Respondeu Allison, enquanto descia as escadas em seu encalço.
— Nah. Five superou Klaus como o alcoólatra da família. – Allison se jogou na poltrona da sala enquanto Diego se sentou no sofá que ainda estava úmido com o sangue de Five. – Onde ele está, afinal?
— Klaus? – Allison deu de ombros – Imagino que em uma festa. A casa não estaria tão quieta se ele estivesse aqui.
Diego balançou a cabeça.
— Não acho que ele estava bem o suficiente para sair. Hoje de manhã parecia doente, estava mais pálido que os fantasmas que ele vê.
— Eu posso perguntar a Luther – Allison se levantou, – Ele deve estar mexendo no escritório de Reginald. Se Klaus saiu, ele deve ter visto.
— Mestre Luther não está em casa, Senhorita Allison – A mulher se assustou com a presença repentina de Pogo. – Ele e mestre Klaus saíram há algumas horas.
— Juntos? – Diego estranhou. Enquanto todos implicavam com Klaus, Luther era de longe o pior, chegando muitas vezes a ser cruel em seus comentários, ele não podia imaginar aqueles dois compartilhando um momento fraternal.
— Quase – Respondeu Pogo com sua calma habitual – Mestre Luther estava bêbado, queria se divertir. Mestre Klaus tentou impedir, quando não conseguiu, ele o seguiu.
— Merda – Resmungou Diego já andando em direção da porta.
— Aonde você vai? – Perguntou Allison apesar de já saber a resposta.
— Atrás dos nossos irmãos idiotas. – Diego respondeu sem se virar. Ele esperava que Allison argumentasse contra a ideia, mas em vez disso ouviu o click de seus saltos.
— Vou com você.
Diego não tentou contradizê-la, sabia que Allison era a pessoa mais recomendada para falar com Luther, principalmente se estivesse muito bêbado. Ele estava mais preocupado com Klaus, no entanto. Os dois não haviam conversado depois de todo o incidente com Hazel e Cha-Cha no dia anterior, mas Diego podia ver que algo estava errado com seu irmão.
Ele e Allison haviam acabado de atravessar as portas da mansão quando dois vultos cambaleantes se tornaram visíveis. O primeiro deles sem dúvida era Luther, não havia como confundir seu tamanho com o de uma pessoa normal.
Quando a luz da entrada iluminou as figuras, porém, foi possível ver que a segunda figura não era Klaus e sim uma mulher, que parecia quase tão bêbada quanto Luther. Os dois pareciam muito felizes enquanto caminhavam na direção da mansão, entre risos e toques íntimos demais para exibir em público.
Diego sentiu uma pontada de tristeza ao ver a decepção no rosto de Allison quando viu a cena. Ele não tentou chama-la de volta quando ela se virou e voltou para dentro, batendo a porta com força atrás de si.
— Dee – Luther exclamou parecendo extremamente feliz em ver o irmão. Diego torceu o nariz com o uso do apelido. O único que continuava a chama-lo assim nos dias atuais era Klaus e apenas por saber que o irritava.
O número Um tropeçou um pouco nas escadas e Diego ficou surpreso que ele conseguisse recuperar o equilíbrio antes de cair. A mulher que o acompanhava, andava alguns passos atrás parecendo pelo menos um pouco mais sóbria que seu parceiro.
— Luther – Diego começou, mas foi interrompido quando o homem maior o abraçou.
— Eu te amo Dee – Se Diego não tivesse certeza de que Luther estava chapado antes, ele tinha agora – Ei, devíamos dar uma festa – Luther soltou um riso frouxo – Comemorar nossa vida fodida.
Diego se afastou do irmão e olhou para seus olhos, ele havia aprendido a diferenciar a intoxicação por álcool do uso de drogas ao longo dos anos por causa de Klaus e, apesar de visivelmente bêbado, as pupilas de Luther diziam que ele estava drogado também.
— Merda – O número Dois murmurou – Luther, onde está Klaus?
— Klaus? – Luther repetiu como se o nome fosse estranho em sua boca.
— Sim. Klaus. – Respondeu Diego sentindo sua paciência se esvair – Nosso irmão, cavanhaque, olhos verdes, vê fantasmas.
— Número Quatro – Luther corrigiu – Papai não gosta dos nomes. Sshh – Ele encostou um dedo nos lábios de Diego pedindo silêncio, mas o número Dois o afastou com raiva.
Diego queria muito ir contra Luther e dizer que ele queria que Reginald Hargreeves se fodesse, mas a sensação de que tinha algo errado com Klaus crescia cada vez mais em seu peito e ele tinha que descobrir onde seu irmão estava.
— Luther, onde está o número Quatro?
— Eu não me importo... – Luther puxou a garota para perto dele – Número Quatro está tão chaaato – Continuou com a voz arrastada – Ele jogou minha bala. Eu queria aquela bala.
Definitivamente havia algo errado, Diego tinha certeza que a bala a que Luther se referia, era algum tipo de droga. Em que tipo de universo alternativo Klaus jogaria drogas fora em vez de engolir? Ele voltou sua atenção para a mulher.
— Você sabe onde meu irmão está? Ele é da minha altura, cavanhaque, provavelmente está usando roupas femininas.
A mulher pareceu pensar um pouco, como se estivesse obrigando sua cabeça entorpecida a trabalhar.
— Ah, sim eu o vi – Ela riu – Ele estava com Elliot.
— Elliot? – Diego repetiu imaginando se esse era o nome de um traficante ou alguém com quem seu irmão estava transando.
— Meu namorado. – A mulher respondeu como se fosse óbvio.
— Meu irmão está transando com seu namorado? – Diego não fez muito além de erguer as sobrancelhas. Não era a coisa mais estranha que ele já ouvira se tratando de Klaus.
— Não – Ela respondeu com escárnio – Ele está brigando com Elliot, perdendo é claro, não tem como aquele magricelo ganhar uma luta com meu Elliot.
– Merda, merda, merda – Diego começou a descer as escadas correndo antes mesmo que a garota terminasse o discurso de como ela só saía com caras altos e fortes.
Ele parou de correr ao chegar à garagem, percebendo que não tinha ideia de qual direção seguir. Pensou por um momento antes de se lembrar de uma boate que ficava a algumas ruas da academia, era o lugar mais provável de encontrar Klaus, já que Luther conseguiu chegar em casa sem um táxi mesmo estando tão chapado.
O Kraken dirigiu pelas ruas em uma velocidade muito abaixo do normal, para o caso de encontrar Klaus pelo caminho. Essa decisão se mostrou incrivelmente inteligente quando viu o número Quatro curvado com uma de suas mãos apoiada em um muro grafitado. Diego suspirou aliviado, acreditando que seu irmão estava apenas bêbado e chapado como Luther.
O número Dois parou o carro e saiu, tomando o cuidado de deixar o motor ligado, ele só precisava enfiar a bunda bêbada do seu irmão no carro e voltar para a academia, ou pelo menos foi isso que pensou.
— Klaus? – Ele chamou ao se aproximar do irmão, que havia voltado a andar cambaleante depois de esvaziar o estômago. – Klaus?
O número Dois não obteve resposta até parar na frente do irmão, bloqueando sua passagem.
— Dee? – Klaus parou surpreso ao ver o irmão na sua frente – Você morreu? – Diego o encarou. De todas as saudações, essa não era uma que esperava de Klaus. Antes que pudesse responder, no entanto, seu irmão continuou com uma voz arrastada, olhando para o lado – Não seja idiota, Ben. Dee não estaria aqui se não estivesse morto.
O Sèance tropeçou e Diego o segurou com o braço bom antes que ele caísse. Ele esperava que o gesto confortasse o irmão com a garantia de que estava vivo, mas em vez disso Klaus se afastou.
— V-você não pode me t-tocar – Ele gaguejou. Suas próximas palavras foram quase incompreensíveis, algo sobre um mausoléu e não ter mais medo.
Diego olhou para os olhos do irmão e viu as pupilas desiguais, estava prestes a dizer algo quando as pernas de Klaus cederam e ele caiu. O Kraken não pôde impedir a queda, mas conseguiu se jogar de joelhos no chão e segurar sua cabeça antes que batesse na calçada.
— Klaus? – Ele chamou hesitante ao perceber que, apesar de consciente, os olhos de seu irmão estavam ainda mais desfocados. Ao mover a mão atrás da cabeça dele para deita-lo em uma posição mais confortável, Diego sentiu sua mão ficar molhada. – Merda – Engasgou ao olhar para baixo e perceber que não apenas os cabelos de Klaus estavam encharcados de sangue, mas havia algumas gotas pingando na calçada – Klaus, olhe pra mim.
— Dee? – O número Quatro murmurou confuso.
— Isso aí, cara – Diego respirou um pouco aliviado. – Vamos levar você para casa.
— Luther – Klaus disse de repente tentando se levantar.
— Devagar, Klaus – Diego tentou acalma-lo – Luther está bem – Ele tentou manter a raiva fora de sua voz ao pensar no outro irmão. – Eu vou te ajudar a se levantar, OK?
Klaus não respondeu, em vez disso olhou para o lado e perguntou em um sussurro:
— Dee não está morto?
— Eu estou aqui Klaus, não estou morto.
Klaus não olhou para Diego, mas deu um pequeno aceno com a cabeça na direção do espaço vazio para o qual estava olhando.
— Bom – Murmurou antes que seus olhos se fechassem.
— K-klaus abra os o-o-olhos – Chamou Diego, mas sem obter resultado. Ele sacudiu um pouco o corpo do irmão e até acertou um tapa forte em seu rosto, mas isso também não surtiu nenhum efeito – V-você não p-pode do-dormir.
Rangendo os dentes com raiva da gagueira que sempre voltava em momentos de pânico, Diego moveu os dedos para o pescoço de Klaus tentando sentir um pulso. Seus dedos tremiam e por um momento pensou que era tarde demais. Ele não pode evitar o suspiro de alívio quando sentiu a batida errática sob os dedos.
Ignorando os conselhos de Pogo sobre manter o ombro ferido imóvel, Diego tirou o braço da tipóia. Ele usou o braço ferido para erguer as costas do irmão e passou o outro pela parte de trás de seus joelhos. Klaus não era pesado, na verdade devia estar bem abaixo de seu peso ideal, mas isso não impediu Diego de sibilar de dor, seu braço esquerdo protestando contra o abuso.
Abrir a porta do carro carregando Klaus se provou um desafio, mas Diego conseguiu, usando um de seus joelhos e o próprio carro para ajudar a apoiar o corpo do irmão enquanto fazia isso. Ele decidiu que era melhor deixá-lo no banco dianteiro já que seria mais fácil tirá-lo depois.
Sentando-se no banco do motorista, Diego se permitiu respirar por um momento. Prendeu o corpo de seu irmão inconsciente com o cinto e deu a partida, acelerando o veículo de volta à academia.
Diego parou na frente da mansão Hargreeves cerca de cinco minutos depois. Antes mesmo de tirar Klaus do carro ele já estava gritando por ajuda. Quando estava carregando o irmão pelas escadas a porta da frente se abriu para revelar sua mãe.
— M-mãe – Ele gaguejou.
— Diego, querido – Grace respondeu no mesmo tom imperturbável de sempre. Ela ajudou Diego a transportar o irmão até a enfermaria e deita-lo sobre a maca.
Com a iluminação mais forte da enfermaria Klaus parecia ainda pior. Seus cabelos estavam totalmente tingidos de vermelho, sua pele pálida e seus lábios pareciam meio azuis.
Grace afastou Diego enquanto verificava os sinais vitais de Klaus. Sua expressão permaneceu neutra, mas ela começou a fazer compressões imediatamente.
— Mãe?
— Querido, vá chamar Pogo.
O número Dois não questionou e correu para fora da sala chamando freneticamente por Pogo. Ele estava um pouco sem fôlego quando encontrou o Chimpanzé na sala de música de Reginald.
— Mestre Diego? – Pogo olhou para o jovem que parecia muito perturbado.
— Ma-mãe precisa de ajuda – Diego falou se esforçando para não deixar o nervosismo assumir – K-klaus sss-está na enfermaria. É ru-ruim.
Pogo saltou da cadeira em que estava sentado e começou a andar na direção da enfermaria o mais rápido que podia. Diego queria correr de volta para seu irmão, mas a adrenalina que o manteve ativo até aquele momento estava se esvaindo rapidamente e seu cérebro voltava a registrar a dor em seu braço ferido.
Pogo entrou na enfermaria e fechou a porta antes que o número Dois pudesse segui-lo para dentro. Diego sabia que podia abrir a porta e entrar, mas ele tinha medo do que ia ver quando entrasse. Só a ideia de ver sua mãe e Pogo usando o desfibrilador em seu irmão o deixava enjoado.
Em vez de tentar voltar para a enfermaria ele se sentou ao lado da porta e esperou por notícias. Ele devia procurar Allison, mas tinha a sensação de que ela não estava em casa. Se estivesse teria aparecido quando ele começou a gritar. Sua raiva aumentou quando se lembrou de Luther, mas se forçou a mantê-la sob controle. Ele lidaria com o número Um quando soubesse que Klaus estava bem.
O tempo pareceu se arrastar. Diego sentia que estava do lado de fora daquela porta por horas apesar de saber que apenas alguns minutos haviam se passado. Ele começava a pensar que trazer Klaus de volta à academia ao invés de levá-lo a um hospital tinha sido uma decisão idiota.
A porta da enfermaria se abriu e Diego viu Pogo sair, suas mãos estavam sujas de sangue e parecia derrotado, atrás dele, Grace tinha a mesma expressão suave em seu rosto, mas ainda era possível ver que algo estava errado.
— Como ele está? – Perguntou Diego se levantando com alguma dificuldade.
— Eu sinto muito, querido – Respondeu Grace ao mesmo tempo que Pogo balançava a cabeça. – Nós não conseguimos...
— NÃO – Ele gritou passando pela mãe para entrar na enfermaria. O corpo de Klaus estava na mesma posição sobre a maca, sua pele ainda mais pálida que antes e boa parte dos lençóis estavam sujas de sangue – M-mãe, p-por favor. – Disse se virando para a mulher com um olhar de súplica.
— Eu sinto muito, Diego – Ela o abraçou. – Eu sinto, muito querido.
Diego ficou rígido por um momento, ele não queria um abraço, ele queria seu irmão de volta, ele queria gritar e queria esfaquear Luther por ter deixado isso acontecer, ele queria se esfaquear por deixar isso acontecer. Quando tentou se afastar, Grace o abraçou mais forte e isso foi tudo o que precisou para que ele quebrasse totalmente. Lágrimas correram por seu rosto enquanto abraçava a mulher de volta.
