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Desperto de mais um pesadelo, mais um dia que eu preciso sobreviver. Várias vezes cogitei a hipótese de me entregar ao pesadelo e nunca mais acordar, porque acordada, é um lembrete constante que eu estou viva e muitos estão mortos, que eu deveria ter morrido no lugar da minha irmã, foi por isso que eu me voluntariei para os jogos.
A guerra e os jogos podem ter acabado, mas pra quem viveu aquilo, elas nunca vão embora. Os raios de luz atravessam a janela do meu quarto, que ilumina o ambiente. Agora desperta, percebo que Willow está ao meu lado, adormecida usando o uniforme da escola. Sempre que eu entro nessas crises ela e Catkin se deitam ao meu lado. Odeio que eles me vejam assim, me lembra de quando papai morreu e a minha mãe entrou em depressão, naquela época perdi ela também. E mesmo depois que ela se recuperou, não a perdoei por isso, aos onze anos precisei amadurecer, e ser forte por mim e pela Prim. Só depois que voltei dos jogos que a relação com a minha mãe começou a melhorar, e ficamos até próximas, mesmo depois da morte da Prim.
Willow se mexeu um pouco se aninhando mais pro meu lado, passei os braços na volta dela e a abracei, já fazem cinco anos que adotamos eles, ter eles ao mesmo tempo me assusta e me dar forças pra continuar vivendo. Pensar que esse ano poderia ser o primeiro ano de colheita dela e eu não teria poder nenhum para parar, assim como não conseguir impedir que a Prim fosse sorteada, me apavora. Hoje em dia, as arenas são abertas para visitação, para que o povo da Capital nunca esqueça que eles foram responsáveis por aquilo, que eles festejavam e brindavam a morte de milhares de crianças. Eu e Peeta nunca falamos sobre isso, provavelmente porque ele não quer saber a minha resposta, mas se tivéssemos tido uma nova votação de um Jogos Vorazes com as crianças da Capital, eu teria concordado. Rue e Prim não tiveram chance de se tornarem adultas, alguém precisava pagar por isso. Mas eu guardo esse pensamento só pra mim, ao contrário de Johanna, que nunca escondeu a vontade de matar cada cidadão da Capital, não posso culpa-la. Pelo menos depois de tudo que aconteceu finalmente a Capital me deixou em paz, nunca mais procuraram nenhum dos Vitoriosos sobreviventes para fazer alguma gracinha na frente das câmeras, depois de sugarem tudo de nos, permitiram que vivêssemos o que restava de nossas vidas em paz.
Sou grata ao Peeta, por ele ter ficado ao meu lado, mesmo que a nossa relação não seja romântica partindo do meu lado, ainda construirmos uma relação de parceria e companheirismo. E eu precisava dele ao meu lado, porque, sem a Prim, eu teria me entregado a bebida e provavelmente acabaria morta em algum canto do Prego. Haymitch não teve essa sorte, sua família foi morta para puni-lo, então, ele estava sozinho tendo que tentar auxiliar dois jovens até a arena e precisar apostar em só um deles. Não era pra menos que sua companhia favorita passou a ser a bebida, o que foi desgastando ele muito, mas até que durou bastante, ele tinha setenta quando faleceu e até conseguia ficar relativamente sóbrio, pelo visto ter o hobbie de cuidar de gansos até que deu resultado.
Willow começou a despertar, os olhos azuis, iguais aos da Prim, me observando. Acaricio seus cabelos castanhos escuros e ela sorri, não fala nada apenas me abraça mais forte. Também a abraço, é por esses momentos que eu ainda vivo, é por ela que eu não me entreguei ao desespero.
