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A cidade de Carpazinha é uma cidade do interior, uma daquelas em que quase nada chama a atenção. Uma daquelas cidades em que quase todos se conhecem, que notícias se espalham rapidamente e que não é incomum a vista de um animal de fazenda perdido, no meio da rua, com as pessoas ao se redor se perguntando ‘Como ele chegou aqui?’, mas já estão acostumadas com a vista.
Apesar disso, a cidade é até que conhecida pelo país. Muitas pessoas se mudam para ela, além de ter sido alvo de fofocas sobre famosos por muito tempo. Qual é o porquê disso? A resposta é simples: o Colégio Nostradamus.
Um dos melhores colégios do país, sendo reconhecido por seu alto nível de pais, fica localizado no meio de Carpazinha, no meio do interior.
Mas não é apenas isso, há outra coisa que espalhou a fama da cidade. Ou melhor, alguém: Arnaldo Fritz, renomado ator brasileiro, foi quem comprou e renovou a escola.
É claro, a mídia se perguntou por que ele construiria uma escola justamente nessa cidade? Teorias surgiram em um estalar de dedos. Por causa de uma aposta? Um filho bastardo? Ou seria isso a primeira parte de um plano para criar uma rede de escolas no país?
Todas as teorias foram rapidamente negadas. A única resposta recebida foi a de que o ator estava em dívida com a cidade, pois viveu muitas boas experiências lá. Isso não parou as perguntas, muito menos as teorias, mas logo a mídia começou a se focar em outros atores, outras fofocas, principalmente após a repentina morte do ator.
Se o que ele disse era a verdade ou não, nunca se descobrirá, mas isso não é importante. Bem, não é no momento, pelo menos. O que importa é que a escola prosperou e continua ativa mesmo após anos desde sua reforma, e, após meses sem aulas devido a um incêndio, o Colégio Nostradamus finalmente reabriu as portas, e hoje é o primeiro dia de aula.
A reabertura era altamente esperada, principalmente por causas das diversas teorias sobre o incêndio que havia ocorrido, mas, como muitas delas beiram a conspiração, muito mais do que as da criação da escola, não serão mencionadas aqui, simplesmente pois não vale a pena fazer isso.
Enfim, finalmente, a escola poderia voltar a ensinar seus alunos, finalmente podendo retomar o seu intuito original, ou o que parece ser ele. O que muitos não sabiam, é que o intuito original realmente seria realizado, mas não da maneira como se esperava.
A fama que circulava esse lugar dava apenas as mais altas expectativas para os alunos. As primas que se aproximavam do local olhavam o prédio de cima a baixo, mal conseguindo acreditar que realmente iriam estudar nesse lugar. Vendo o prédio, elas pensaram que talvez os rumores e expectativas não eram tão exagerados assim.
Apesar de boa parte dos locais terem sido interditadas devido ao incêndio, a escola continuava sendo gigantesca. Biblioteca, salas de informática, uma piscina, tantas coisas estavam incluídas nesse colégio. Era estranho pensar que, se tudo desse certo, elas estudaram lá até terminar o ensino médio
Como as duas estavam em anos diferentes, elas tiveram que se separar. Elizabeth foi em direção ao 2° ano B, e lá começou seu ano.
Os professores eram bem diferentes, algum até excêntricos, pode-se dizer. As aulas passaram em um piscar de olhos, sem nenhuma preocupação, ou, bem, quase, pois a professora de geografia, na última aula, resolveu que o primeiro dia de aula seria um ótimo momento para se mandar um trabalho em grupo.
“Vamos lá, gente,” a professora, Laura, disse “Não vai ser tão ruim assim.”
Essa professora em questão era uma mulher que aparentava ter uns 30 anos, usava uma blusa azul por baixo de um jaleco da escola. A mulher tenta dar um sorriso tranquilizador para a turma.
Isso não tranquilizou os alunos. Ela apenas suspira e começa a entregar papéis para a turma.
“A escola não serve só para ensinar conteúdo, mas também para ensinar coisas importantes, sabe? Trabalhos em grupo são muito importantes, ajudam vocês a saberem a trabalhar em grupo, até com pessoas que vocês não conhecem. Vocês vão precisar muito disso na faculdade, vocês não têm ideia,” ela entrega o último papel para um garoto de cabelos negros longos e volta a sua mesa, “Bem, todos vocês já receberam papéis, certo? Vocês podem abrir eles agora, o número que vocês receberam é o número do grupo de vocês.”
Elizabeth Webber estava nem um pouco empolgada em ter que fazer um trabalho em grupo. Eles eram chatos de se fazer, e ter que fazer um com desconhecidos iria ser pior, mas, como valiam nota, não tem outra opção. A garota abre o papel, vendo o número ‘4’ escrito em caneta.
“Certo, agora, como eu expliquei, o trabalho consiste em um cartaz e uma apresentação, pra daqui um mês, vocês podem usar essa aula para se organizarem. E vale nota, viu? Eu irei explicar melhor as matérias com as próximas aulas, mas elas são matérias que vocês já estudaram nos anos passados. Vou ir chamando os números de vocês e quem tiver o número levanta a mão, e eu vou falar o tema de vocês, vocês podem juntar suas carteiras. Certo? Vamos lá, número 1”
Assim se passam os próximos minutos, com os grupos se reunindo, o som mais predominante na sala sendo o barulho de carteiras se arrastando e conversas. Algumas pessoas tiveram a sorte de ter conhecidos no grupo, outros nem tanto, como o próximo grupo.
“Ok, agora, 4?”
Elizabeth levanta a mão, e vê outros dois garotos também levantarem as mãos. Ela estranha o número de pessoas, todos os outros grupos tinham 4 ou mais pessoas, por que será que esse grupo era diferente?
“O tema de vocês será biomas. Sabe, um resumo sobre os biomas do mundo, não é necessário fazer os do Brasil. Só um aviso para esse grupo, outro aluno que também está nele, o Alexsander, não veio hoje, mas vocês podem ir se organizando por enquanto.”
Bem, isso explica o número, melhor ignorar a paranóia. O grupo rapidamente junta as carteiras perto de uma janela.
“Salve rapaziada,” um dos garotos, esse de cabelo curto e castanho, com as mangas de seu uniforme puxadas, diz enquanto se senta, “Sou Thiago. Algum de vocês aí sabe alguma coisa sobre biomas? Porque mano, sei nada não.”
“Sou Daniel,” o outro, esse ruivo, com cabelos presos em um coque e raspado dos lados e parece estar tentando crescer uma barba, diz, “Não, sei só o básico do básico.”
“Elizabeth,” a garota olha pela janela, a vista que ela encontra lá fora são três crianças correndo. Elas estavam usando o uniforme da escola, provavelmente estavam matando aula. Amadores. Ela desvia olhar para olhar nos olhos do resto de seu grupo, “Não sei muito não sobre isso não, mas vamos ter que aprender. Já vou avisando aqui, meus queridos, que todo mundo aqui vai participar do trabalho. Se um de vocês sumir e só aparecer pra apresentar, teu nome não vai estar no trabalho.”
“Ninguém falou em não participar, minha querida,” Thiago diz.
“É melhor eu já deixar avisado,”
“Enfim, vocês querem já ir organizando isso ou querem deixar pra depois?” Daniel pergunta.
“Acho melhor já ir organizando,” a garota responde, “Melhor não deixar tudo pra última hora.”
“Bem, é meio difícil organizar sem todo mundo aqui, né,” o garoto ruivo diz.
“Dá pra gente pode ir deixando já tudo meio planejado,” Thiago propõe, “Daí dá pra já ir pesquisando um pouco.”
“Acho que isso vai funcionar.” A garota olha para fora novamente, ela pode vê as crianças serem encontradas por uma professora e ser levadas para dentro da escola. Amadores, “Na próxima aula já podemos trazer um pouco que estudamos e ir organizando.”
“Parece bom pra mim,” Daniel diz. Já que a professora havia deixado a reunião dos grupos para o final da aula, o sinal bate.
“Bem, parece que a aula já acabou, vamo ver isso na próxima aula. Falou.” o garoto de cabelo curto começa a se levantar.
“Esperem aí todo mundo,” a professora avisa para alguns alunos que estavam saindo, “Vamos organizar a sala primeiro, dar menos trabalho para as tias,” a professora avisa.
Alguns minutos se passam até as carteiras serem organizadas. Elizabeth pega sua mochila e sai da sala. Lá fora, ela encontra uma garota esperando, com cabelos longos com uma mecha azul. Parece que o 1° B saiu antes. Essa garota sorri e ajeita a mochila em suas costas.
“Oi Liz! Eu vi pela janela e o tio já tá lá fora esperando, quer ir junto?”
“Vamos indo, ele vai ficar falando se a gente demorar demais, né.”
“Bem, como foi seu primeiro dia?” sua prima, Carina, pergunta, enquanto as duas se dirigem para fora, “O meu foi bem diferente. As escolas aqui do Brasil são muito diferentes, tinha bem mais alunos aqui!”
“Vai demorar um pouco até você se acostumar. O meu dia foi até que normal, a única coisa de diferente foi um trabalho em grupo. Nunca vi trabalho em grupo no primeiro dia.”
“Nossa, eu não tive nenhum trabalho hoje, só tarefa mesmo. Bem, boa sorte!” a garota sorri e acena para o carro do tio, estacionado na frente dela.
“Obrigada, eu provavelmente vou precisar, eu odeio trabalho em grupo,” as duas entram no carro, e encontram seu tio. O homem velho, de cabelos e barba grisalhos, usando um cachecol, sorri para elas.
“Oi tio!” Carina cumprimenta.
“Boa tarde,” o velho homem diz enquanto começa a dirigir, “Como foi o primeiro dia de vocês? Me lembro do meu primeiro dia nessa escola, sinto saudades dessa época…”
As garotas explicam um pouco de seu dia, com o tio de vez em quando interrompendo para relembrar seus velhos tempos. As garotas, já acostumadas com isso, nem se importam, e os três apenas seguem até o caminho de casa.
A madrugada chega. Ela sempre chega, é uma daquelas coisas da vida que é considerada certeza. Se não chegasse, algo extremamente errado estaria acontecendo. Mas para algo de errado acontecer, as coisas consideradas certezas podem continuar acontecendo, sua presença não alterando o errado nesse lugar. Como em um prédio, há algo de errado nele, mas coisas continuam acontecendo.
Em uma escola, alguém está andando. Um rapaz, se dá para chamá-lo assim. Cadáver seria mais apropriado, mas cadáver não é mutuamente exclusivo de rapaz, é? Mas rapaz parece dar a expressão de algo vivo, algo que muda, algo que sente, e esse cadáver não tem nada disso, não faz nada disso.
Seus passos são lentos, instáveis, e uma pessoa de longos cabelos negros, da mesma cor de seus olhos, com um uniforme escolar, usando uma saia vermelha, não pode fazer nada além de observá-lo, imóvel, sem poder mudar ou sentir nada.
