Work Text:
"This is as good a place to fall as any
We'll build our alter here
Make me your Maria
I'm already on my knees..."
Quando não estava ocupado com questões mais mundanas, o que geralmente entendia-se por estar escondido com alguma namorada na sacristia, Julinho até que prestava atenção em um ou outro sermão da missa na igrejinha perto de casa. Gostava mais quando o padre contava uma história, algum santo tentando pregar aos animais ou indo parar em uma arena romana. Havia, porém, se impressionado com a descrição do êxtase dos santos: falavam de revelação e glória além do entendimento humano, algo que toma o corpo e eleva a alma, fazia ver o mundo sob nova luz. Acreditava que teve seu momento de revelação quando decidiu que beijaria Maurílio dos Anjos.
Não achava particularmente especial querer beijar outro homem, desde que havia começado a beijar, há muitos e muitos anos atrás, achava charme em todo tipo de boca, não se importava se tinha bigode, batom, nada disso ou ambos. Era especial porém, dar um beijo em Maurílio e sentia que era algo de celestial que o havia compelido a aproximar-se do outro com olhos semi-cerrados, mãos alcançando tudo que poderia, afastando-se quando o palestrinha fez que precisava de espaço, surpreso, ofegante, bonito. Quando Maurílio correspondeu àquele beijo, na frente de todos os amigos e quem estivesse vendo o programa, foi glória.
O estúdio estava vazio quando voltou ao chão. Estava com a mão por dentro da abertura na camisa do outro piloto, sentindo os pêlos macios do tórax dele e, de vez em quando, roçando no bico do peito. Em algum momento, Maurílio tinha se movido do caixote que usavam como bancos para sentar sobre as pernas de Julinho. Se alguém perguntasse, diriam que não estavam perto o suficiente.
“Meu bem,” Julinho murmurou, distribuindo beijos ao longo do pescoço pálido do outro, “Vamo lá pra van?”
Maurílio suspirou, mãos aninhadas no cabelo claro do outro homem. Ele tinha os olhos bem fechados e a boca vermelha de tanto beijar. Fez o piloto da sprinter lembrar do crush adolescente que teve em São Sebastião, sem dúvidas esse homem também merecia um altar.
“Me leva para lá agora, Julinho.”
“Sério mesmo?” Ele perguntou, às vezes era um homem de pouca fé. Maurílio segurou os pulsos gordinhos do outro homem, colocou os braços dele ao redor de si.
“Claro! Eu quero você,” ele fez um carinho na barba rala por fazer de Julinho, “Não tem obrigação de nada, a gente pode começar devagar.”
“Só ficar juntinho e dar uns beijos? Daí a gente vai vendo o que faz?”
“Isso.”
Trocaram um beijo cheio de língua e dentes, Julinho segurando a cintura do outro com firmeza, e Maurílio puxando a cabeça dele para trás pelo cabelo, de um jeito firme que causava os melhores arrepios. Quase caíram do banquinho improvisado.
“Vem, vamo lá que vai ser bom,” Maurílio falou no ouvido dele, cheio de promessas. Não precisou se repetir.
Julinho tinha deixado a sprinter estacionada parcialmente em cima da calçada em frente ao estúdio. Fez questão de andar até lá com um braço ao redor do ombro de Maurílio, que por sorte tinha vindo gravar de carona com o tal do amigo uber e, portanto, não havia a preocupação de estarem deixando a kombi para trás. Deu uma olhada no celular quando entraram no veículo, havia várias mensagens de Rogerinho, presumidamente fazendo ameaças criativas se fizesse algo que machucasse o piloto mais jovem. Enquanto ligava o motor e dirigia para algum outro lugar, viu Maurílio ficando vermelho enquanto checava o próprio telefone.
“Tu fica fofo vermelho assim.”
“Oi? Ah, é o Rogerinho… Ele tá mandando vídeos educativos,” ele explicou, mostrando brevemente a tela exibindo um vídeo no youtube, onde uma moça simpática estava desenrolando um preservativo em um objeto de silicone.
“Ele sabe que tu tem trinta e três anos?”
“Sei lá o que ele está pensando,” Maurílio respondeu. Tinha uma expressão séria, que fazia aparecer uma ruguinha na testa. Julinho esticou a mão para o lado para fazer um carinho na têmpora do outro, gesto que foi bem-vindo. Queria fazer carinho nele inteiro, da cabeça aos pés.
“Isso aqui,” Maurílio disse, fazendo um desenho circular com o dedo que parecia indicar eles dois, e tudo o mais que havia transcorrido, “é só de momento?”
Foi a vez de Julinho suspirar. Pensou no impulso transcendental que havia lhe dito que era o momento certo. Na certeza que havia sentido se espalhando pelo corpo quando teve aquele homem em seus braços.
“Não, eu quero… Quero tentar… ser teu namorado. A gente já é amigo, é só fazer o que a gente já faz, só que com beijo, dormindo junto e tal. Se tu quiser, claro!” O piloto falou. Geralmente era desenvolto na arte da paquera, mas sentia que tinha uma relíquia em mãos, algo sagrado e frágil que fora designado a cuidar com devoção. Olhou de soslaio para o moreno e viu que ele estava sorrindo.
“Eu quero, nunca quis tanto outra coisa,” ele respondeu. Julinho sentiu o peito mais leve, talvez houvesse muito mais o que conversar, mas por hora, ambos tinham tudo que precisavam saber.
Estacionou perto da praia, ficaram abraçadinhos num dos bancos mais espaçosos no fundo da van, assistindo o pôr do sol. O céu estava todo escuro quando Maurílio olhou pra cima, de onde estava aninhado no peitoral do piloto. Ele esticou a mão para tocar o rosto de Julinho, o trazendo para perto, juntando as bocas dos dois. Foi um beijo lento, exploratório, repleto de adoração, desses que deixam o joelho meio fraco e um corpo todo em comunhão com outro. A mão de Julinho foi peregrinando de novo para dentro da camisa do Palestrinha, traçando uma linha pela clavícula até o ombro, tentando tirar o tecido estampado do caminho.
“Tá legal assim?” Julinho perguntou, dando uma mordida repleta de pecado na junção do pescoço com o torso, sentiu o parceiro estremecer e gemer baixinho, o que fez Julinho muito orgulhoso, mas ele precisava saber em palavras:
“Fala pra mim, vai? Posso tirar essa tua camisa?”
“Sim, Julinho, sim!”
Ele não perdeu tempo em abrir os botões, deixando um rastro de beijos em cada pedaço de pele que era revelado. Pegou um mamilo entre os dentes e torceu o outro entre o polegar e o indicador. Os sons que Maurílio fazia, dava vontade de cair de joelhos na frente dele.
“Sou teu maior devoto, meu anjo,” falou por falar, porque queria ser romântico e ouvir Maurílio rindo. “Vou fechar a cortininha da sprinter, tá legal?”
Aproveitou para pegar um pacotinho de camisinhas da carteira, por via das dúvidas. Também acendeu a luzinha do painel, porque gostava de ver a transa e achava que a luz fraquinha ajudava com o clima. Ouviu Maurílio rindo de novo, e era um som quase tão maravilhoso quanto os gemidos dele, sabia que nunca cansaria de nenhum.
“Que foi, dodói?”
“Tu é incrível, sabia? Olha só isso, é perfeito!” Maurílio riu, então olhou para Julinho, os olhos parecendo quase pretos na penumbra da van e cheios de desejo.
“Vem cá fazer amor comigo.” O piloto de kombi chamou. Julinho removeu a regata sem delongas, jogando ela na direção do banco do motorista, e foi abraçar Maurílio bem apertado, pele tocando pele, toda a proximidade uma nova verdade sagrada.
Deitou no banco trazendo o outro para cima de si, o moreno sentou sobre ele com uma perna de cada lado do quadril do novo namorado, fazendo as ereções encostarem, embora ainda houvesse roupas demais entre os dois homens. Maurílio era um anjo travesso, na opinião de Julinho. A luz indireta criava uma auréola ao redor do cabelo preto, que havia ficado todo bagunçado por culpa do outro piloto. Ele movia o quadril com abandono e gosto.
“Maurílio, meu bem, não quer tirar essa calça? E daí a gente continua assim?”
O piloto de kombi olhou para ele, a boca entreaberta e o cabelo que sempre usava penteado para trás caindo sobre os olhos. Fez que sim e se afastou para tirar o jeans, que certamente não devia estar confortável. Não demorou que ambos estivessem completamente nus, uma das mãos de Julinho agarrando a nádega do outro com gosto, enquanto a outra segurava as ereções bem juntas, causando ondas e ondas de prazer a cada floreiro que fazia com o pulso. Maurílio estava mordendo a boca daquele jeito tão irresistível que fazia, quando passou a mão pela barriguinha proeminente do outro homem.
“Tu gosta, é?”
“Muito sexy!” Maurílio respondeu, dando uma apertada.
“Chega aqui, gostoso,” Julinho subiu as mãos adoradoras pelo corpo do outro e puxou ele para perto, queria beijá-lo e sugerir ao pé do ouvido uma litania das coisas sacanas que podiam fazer juntos.
Julinho sentiu o corpo do outro se arrepiando com a linguagem vulgar e promessas de sexo do jeito que quisessem. O moreno respondeu às palavras com um movimento mais intenso com o quadril, ainda que tivesse escondido o rosto na curva do pescoço do bigodudo quando finalmente conseguiu dizer algo.
“Puta merda, Júlio, eu quero tudo isso que você disse, sim.”
“E agora, o que tu quer?”
“Você.”
Julinho ofereceu o seu melhor sorriso e fez os dois trocarem de posição, deixando Maurílio deitado com as costas no banco. Depositou um último beijo suave sobre os lábios do amante e começou: traçou uma linha com a língua ao longo do torso, mais daquela atenção especial aos bicos do peito que faziam Maurílio torcer os dedos do pé. Arranhou na parte interna das coxas, até atrás do joelho tinha lambido, queria todo o corpo dele respondendo, implorando por mais provocações e toques. Suspirou satisfeito quando o moreno abriu as pernas e chamou seu nome, um pouco desajeitado na falta de espaço.
Usou boca e dedos para amá-lo, fazendo toda uma prece profana àquela paixão, quando sentia o calor aveludado de dentro do corpo dele ao redor do dedo, o sabor forte do gozo dele na boca. Maurílio estava uma bagunça de suor, lágrimas boas e respiração ofegante, quente demais, mas querendo ficar o mais perto o possível, deslizando a mão pelo corpo de Julinho e envolvendo os dedos ao redor do seu pênis para ajudá-lo a chegar ao clímax também. Fizeram isso juntos, uma mão sobre a outra, sêmen entre os dois.
Quando afundou o nariz no topo da cabeça de Maurílio, aspirando o cheiro de gel de cabelo, suor masculino e calor humano, sentiu-se elevado a um paraíso terreno.
"I'm not here looking for absolution
Because I found myself an old solution"
