Chapter 1: 'Til It Happens to You
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Lorena passou a noite de trabalho tentando não pensar.
Quando os pensamentos sobre o curso em Oxford surgiam e as dúvidas vinham, ela os empurrava para o fundo da mente e se obrigava a focar no presente: dar o melhor de si, ser o mais simpática possível com os clientes, sorrir, perguntar se haviam gostado das entradinhas e dos drinks, trocar amenidades, fingir que se importava com coisas sem importância.
Quando finalmente deu o seu horário, trocou de roupa e guardou o uniforme de trabalho dobrado na bolsa para levar para lavar, mas não conseguiu chamar um Uber para voltar para casa.
Seus dedos se recusavam a finalizar o pedido, e toda a angústia, todo o medo que havia reprimido durante o expediente, pareciam se materializar em mãos invisíveis ao redor do seu pescoço, apertando e expulsando todo o ar de seus pulmões.
O bar já não tinha tanto movimento; faltava apenas uma hora e meia para fechar. Ela guardou o celular no bolso e decidiu aproveitar a calmaria pra organizar a cabeça e os sentimentos.
Não queria levar aquela nuvem escura pra casa, pra perto de Eduarda, então voltou para o balcão, jogou a bolsa de lado sem nem olhar e pediu que André lhe trouxesse uma cerveja. Ele ergueu uma sobrancelha, mas entregou a bebida.
Por vários minutos, ela apenas deu goles lentos, em silêncio, o olhar distante tentando organizar os pensamentos e conter o choro no ambiente de trabalho. Quando terminou a primeira, pediu outra. Quando começou a terceira, já desabafava com o colega, que também havia trocado para roupas normais e se apoiava em uma pilastra ao seu lado, ouvindo-a.
Ela olhou para a garrafa, irritada consigo mesma por estar passando por aquela situação, e ainda por cima bebendo aquilo.
Não era nem um vinho bem escolhido pela namorada, algo que pudesse saborear. Cada gole parecia pior que o anterior; aquela última longneck estava terrível, quase amarga, e ela não entendia como alguém podia gostar daquilo. Ainda assim, continuava bebendo, tentando afogar um pouco das preocupações. Não era mulher de desistir, e pelo menos a cerveja estava bem gelada e ocupava suas mãos nervosas, que já haviam mexido em todos os guardanapos à sua frente.
— Eu sempre quis ir pra Inglaterra fazer esse curso. Por que isso tá acontecendo agora? Justo agora que eu tô tão feliz… eu tô casada. — a última palavra saiu estrangulada.
— A gente só faz planos. E o cara lá de cima ri da gente — comentou André, em um tom manso. — Vamos parar um pouco com a bebida, Lorena.
— Ai, me deixa. — ela resmungou, irritada. Odiava quando alguém lhe dizia o que fazer, principalmente um homem.
— Você não tá acostumada, vai acabar passando mal. — explicou, mantendo a voz gentil.
Lorena virou a última garrafa de cerveja, sentindo o olhar de André acompanhando o movimento. Talvez ele a estivesse julgando, mas, naquele momento, ela pouco se importava.
— O que que eu faço da minha vida? — perguntou, quase em um sussurro, apoiando a testa na mão, incapaz de sustentar o peso dos próprios pensamentos.
André descruzou os braços, aproximou-se e afastou a garrafa dela.
— Vem comigo. — disse, oferecendo a mão e pegando sua bolsa do balcão. — Vou te deixar em casa.
Lorena engoliu um soluço e puxou o ar com força, cedendo. Não queria mais sofrer em público. Tudo o que queria agora eram os braços da sua mulher, o cheiro do pescoço, o calor da pele. Queria pedir que Duda a abraçasse e nunca mais soltasse. Nunca mais.
André a ajudou a se levantar e a guiou até a porta, com a mão em seu ombro para equilibrá-la. O toque dele só aumentava sua urgência de estar de volta ao lado de Eduarda, que provavelmente já estava preocupada, já que, desde que guardou o celular no bolso, ela não tivera coragem de pegá-lo nem para avisá-la, com medo de ver aquele e-mail de novo.
Lorena começou a se sentir tonta, e eles seguiram a passos lentos até o carro dele, estacionado na rua lateral. Ela parou por um longo instante diante da porta, encarando-a, tentando afastar a sonolência que se infiltrava aos poucos, como um cobertor pesado envolvendo seus músculos e pesando sobre os ossos.
André percebeu e a ajudou a entrar. Afivelou o cinto de segurança nela e deu a volta para o lado do motorista.
— Coloca aqui o seu endereço. — pediu, entregando o celular aberto no Waze.
Lorena demorou mais do que o normal para digitar o endereço em Pinheiros. As letras dançavam diante de seus olhos, e seus dedos, descoordenados, erravam mais do que acertavam.
Quando finalmente conseguiu, devolveu o aparelho. André o posicionou no painel, deu partida e ligou o rádio em volume baixo, deixando tocar alguma música de MPB.
Eles não conversaram. Ele parecia tão perdido em pensamentos quanto ela, lançando apenas olhares demorados em sua direção de vez em quando, que Lorena interpretou como preocupação.
Durante o trajeto, Lorena começou a se sentir estranha.
Não estava acostumada com álcool e, mesmo começando a gostar de um vinhozinho, só bebia quando estava com a pessoa em quem mais confiava no mundo. Conhecia bem os efeitos da pequena quantidade que consumia de vez em quando com Eduarda: os músculos relaxando, o calor surgindo de dentro, a coragem aumentando um pouco, as inibições diminuindo.
Ela não sabia comparar a quantidade de vinho que costumava beber com o que havia consumido de cerveja no bar. Ainda assim, seu corpo entrou em alerta quando a paisagem pela janela começou a parecer turva, como se estivesse em câmera lenta. Tentou fazer a cabeça parar de girar, mas não conseguiu nem abrir o vidro da janela para deixar o vento entrar e ajudá-la a se recompor.
Lorena encarou o próprio braço, franzindo o cenho. Seus membros pareciam envolvidos em cimento. Ela não conseguia levantá-los.
— André... — tentou falar, alertá-lo de que estava passando mal, com medo de vomitar no carro do colega, mas mal conseguia sentir as palavras se formando na boca.
— Estamos quase lá! Ó, mais uns 7 minutinhos. — ele a interrompeu, apontando para o Waze brilhando no celular no painel do carro.
Os dedos dele tamborilaram no volante por um instante antes de se aquietarem. O olhar escapou rápido demais na direção dela, avaliando, e voltou para a estrada como se nada tivesse acontecido.
Ela respirou fundo, sentindo um breve alívio ao pensar que logo estaria nos braços de quem mais amava, mas a sensação se dissipou quando percebeu que, alguns minutos depois, o colega havia parado na rua errada, numa esquina com pouca iluminação e nenhum movimento.
André virou o corpo para ela e fixou os olhos escuros nos verdes dela. Havia algo errado naquele olhar, e isso fez um arrepio lento descer por sua nuca.
Ela engoliu em seco antes de tentar falar. A garganta áspera, como se não bebesse água há dias.
— Falta... mais uma rua. — a voz saiu arrastada. Ela se forçou a apontar na direção certa. O braço formigou quando conseguiu levantá-lo.
Talvez tivesse colocado o endereço errado. Ou o mapa estivesse mostrando a localização incorreta. Pinheiros podia ser um bairro confuso.
— Eu sei, mas achei que a gente podia conversar. Já faz um tempo que eu queria falar com você.
Ela piscou, tentando organizar os pensamentos, mas eles escapavam antes de se formarem por completo. — Sobre... o quê?
— Sobre a gente.
A cabeça leve demais. Flutuando. Sem âncora. O corpo, pesado. Afundando dentro de si mesma. — A gente...?
— Lorena, você é uma mulher muito bonita. — o olhar dele se manteve preso ao dela por tempo demais. — Eu só estava esperando a oportunidade certa pra te dizer o quanto eu queria te beijar.
O choque a deixou em silêncio por um instante, enquanto o cérebro tentava acompanhar. Havia algo resoluto no modo como ele a olhava, como se já tivesse tomado uma decisão sem consultá-la. Uma onda de desconforto subiu por sua espinha, lenta e inevitável.
André pareceu encarar a pausa como permissão para continuar.
— Eu sei que a gente não conversou muito, mas não tem problema né? Dá pra sentir a nossa química sem nem precisar falar nada.
Antes mesmo do toque, o corpo dela já estava em alerta, como se alguma parte dela soubesse o que estava por vir.
Num gesto rápido, sem pedir passagem, André levou a mão à coxa dela. Apertou.
Ela se sobressaltou no banco.
O toque não era convite, era imposição.
O coração disparou. Ela tentou levantar os braços. Empurrá-lo.
A força não veio.
Ele nem reagiu ao gesto fraco. Só um sorriso de canto.
A náusea subiu.
— André... eu tenho... namorada... Eduarda... e eu n-não... — ela balançou a cabeça, tentando explicar. Talvez ele a tivesse interpretado mal em algum momento. Talvez nem conhecesse Eduarda. Improvável. Ela vivia no bar para lhe fazer companhia.
— Ah, mas ela não precisa saber. Fica entre a gente. — ele riu baixo. Como se fosse brincadeira.
— Não. A gente... Eu... Não. Eu amo ela. — a palavras sairam baixas, arrastadas, quase presas na língua.
— Ah, mas quando a gente se beijar você vai ver que eu vou colocar uma dúvida na sua cabecinha. Mas não precisa se preocupar com isso. Não precisa ser sobre amor agora. A gente pode só se divertir. Eu vou te mostrar como vai ser gostoso e você nem vai pensar nela, quer ver?
— Nã—
Não conseguiu terminar.
Ele não pedia. Tomava. Como se já tivesse decidido.
Ele se inclinou. Rápido. Decidido.
Quando ela tentou virar o rosto, ele já estava perto demais.
Os dedos dele prenderam o rosto dela. Firmes. Espessos. Calosos.
A boca dele encontrou a dela. Bruta. Dentes batendo. Dor. Choque.
Ele sugou seus lábios. Forte demais.
Ela tentou recuar. Encostou no banco o máximo que conseguiu. Ele foi junto.
Sem espaço. Sem ar.
Tentou fechar a boca. Morder. Machucar. Tirar aquilo de dentro dela.
Os dedos pressionaram seu maxilar com mais força. Abrindo. Forçando. Dor.
Lorena se contorceu. Tentou escapar. Não havia espaço.
Tentou respirar. Não conseguia puxar o ar.
O cinto queimava o pescoço. Puxava a pele. Ardendo.
A imposição dele.
O braço esquerdo preso no banco, comprimido entre o corpo dela e o dele.
O punho torcido. Forçado para trás. Ligamentos esticando. Pontadas de agonia. Pontos pretos invadindo a visão. Dor.
O outro braço empurrava. Desajeitado. Fraco. Inútil.
O cavanhaque raspou a pele do rosto. Arranhando. Áspero. Ardendo.
O estômago se revirou. A náusea veio como uma onda.
Ela tentou se esquivar de novo. Não havia para onde ir.
O cinto apertava. Estrangulava.
O ar não vinha. Os pontos pretos aumentavam. A tontura.
O corpo não respondia.
Cada movimento lento. Denso. Como atravessar melaço.
Ela queria fugir.
Não conseguia.
A boca dele desceu para o pescoço. Quente demais. Molhada.
Lambendo. Como se fosse dono.
Lorena se debatia como podia. Torceu o corpo. Conseguiu soltar o maxilar.
Mas ficou presa. Entre a porta trancada. E ele.
Por um segundo, tudo se afastou. Seus ouvidos zumbiam.
O corpo pareceu distante. Longe. Em outra dimensão.
Flutuava. Boiava. Sem peso. Sem rumo.
Não estava mais ali. Não sentia.
O banco. O cheiro de chulé e suor.
A porta.
A rua escura do outro lado do vidro.
A respiração dele. Perto demais.
Então ele avançou de novo.
A mão dele se fechou no braço direito dela. Forte demais. Marcando. As digitais se afundando na pele.
Puxou. Um tranco. Violento.
A dor. A ardência. A dor. O arranhar. A dor. O fincar. A dor. As unhas. A dor.
A dor.
A dor trouxe tudo de volta. De uma vez. Como um estilingue. Como uma âncora.
Ela conseguiu afastar o rosto. Só o suficiente.
Puxou o ar. Os pontos pretos recuaram. Os pulmões encheram. Soltou.
— André, não. Me solta! André, eu... disse não.
Ele ignorou o que ela disse, como se suas palavras não tivessem peso algum. Não importavam.
A mão livre desceu. Escorregou para dentro da blusa listrada dela.
Apertou seu seio. Forte.
Lorena grunhiu. Dor.
Tentou puxar os braços.
O aperto no braço direito aumentou.
tu-dum. tu-dum. tu-dum.
A mão desceu mais.
Puxou o zíper dos jeans. Abriu o botão.
tu-dum. tu-dum. tu-dum.
Ela tentou jogar a testa contra a dele. Com força.
Ele percebeu. Recuou a tempo.
O aperto no braço piorou. Cortando a circulação.
Os dedos formigaram. Depois, nada.
tu-dum. tu-dum. tu-dum. tu-dum.
Os dedos ásperos invadiram os jeans.
TU-DUM. TU-DUM. TU-DUM. TU-DUM. TU-DUM.
Afastaram a calcinha.
TU-DUM. TU-DUM. TU-DUM. TU-DUM. TU-DUM.
Uma onda de adrenalina a atingiu. Violenta. Brutal.
Um tsunami.
Lorena agarrou aquilo. Usou.
Força emprestada. Era seu último recurso. Tudo que tinha.
Conseguiu afastar o rosto o suficiente para gritar:
— PARA!
Ela ofegava. Tremia.
— Me solta. Minha nam… namorada... ela é policial… —a voz saiu mais firme dessa vez. Curta. Rouca. Um último esforço de controle.
Ele congelou.
E, aos poucos, se afastou o suficiente para olhá-la.
Ela sustentou o olhar. Canalizou tudo o que tinha. Tudo.
Transformou o olhar em ameaça.
Ela é policial. Ela pode te prender... Ou pior. Ela pode se vingar.
Era isso que tentava dizer. Só com o olhar. Era tudo o que tinha. Era tudo que restava.
Por um instante, algo passou pelo rosto dele.
Hesitação. Rápida. Quase nada.
Como se, pela primeira vez naquela noite, ele entendesse que talvez houvesse consequência.
Ele soltou o ar pelo nariz. Não irritado. Desdenhoso.
Os dedos ajustaram a calcinha dela de volta ao lugar. Devagar. No tempo dele. O dela não importava.
Retirou a mão.
Fechou o botão.
Um sorrisinho debochado.
Um tapinha na coxa dela.
As duas mãos subiram para o rosto dela. Seguraram. Forte.
Possessivo.
Puxou.
Pressionou a boca contra a dela mais uma vez.
Passou a língua pelos lábios dela. Marcando.
E então se afastou. Soltou seu braço.
Não havia arrependimento no rosto dele.
Só cálculo.
E uma ponta de preocupação com o que aquilo podia significar para ele.
— Quando você olhar pra sua namoradinha policial sem sal, você vai lembrar de mim. E vai se arrepender de ter me desprezado. — a voz baixa. Carregada.
Ele destrancou as portas.
— Bora. Sai do meu carro, vadia.
Lorena não esperou mais um segundo.
Forçou o corpo a obedecer.
Liberou o cinto. Abriu a porta.
Tropeçou para fora, cambaleando alguns passos, tentando se afastar o máximo possível do carro.
Ouviu André xingá-la enquanto se inclinava para puxar a porta do passageiro por dentro.
Ouviu os pneus cantarem quando ele fez a volta e arrancou na direção oposta.
Lorena continuou andando, desalinhada, até alcançar a lateral de uma loja de doces de esquina, já fechada. Encostou na parede descascada, buscando algum apoio.
O corpo inteiro tremia.
Puxou o ar pelo nariz, tentando fazer o coração voltar para o lugar, parar de martelar na garganta.
Ergueu os olhos. A luz amarela do poste acima se espalhava em feixes desfocados.
Só então percebeu que estava chorando.
Os pensamentos vinham confusos, fora de ordem. A memória falhava, como se não conseguisse segurar nada por tempo suficiente.
O corpo pedia para ceder. Sentar ali mesmo. Deslizar até o chão. Se encolher sob a marquise da loja e deixar tudo apagar. Dormir. Esquecer.
Mas havia outra coisa.
Algo insistente batendo no peito, aquecendo-a, dando-lhe a energia que precisava para continuar.
Uma necessidade quase primitiva, que a mantinha de pé.
Ela precisava chegar aos braços de Eduarda.
Lá, estaria segura.
Chapter 2: And All of the Ghouls Come Out to Play
Summary:
Depois que Lorena vai para o trabalho, Eduarda tenta se distrair para não ficar sozinha com os próprios pensamentos enquanto espera a namorada.Mas quando as mensagens ficam sem resposta, as ligações caem na caixa postal e as horas continuam passando sem nenhum sinal de vida, a ansiedade começa a falar mais alto e ela não consegue mais ignorar a sensação de que algo está errado.
Enquanto isso, Lorena parece ter que enfrentar todos os círculos do inferno para tentar chegar em casa.
Notes:
Por favor leia as tags e os CW.Eu aparentemente entrei em mania e decidi escrever À MÃO o rascunho desse capítulo e aí eu sofri as consequências dessa INSANIDADE quando eu acabei escrevendo mais de 70 fucking páginas.
Tive que digitar TUDO (meus punhos ARDENDO), só que virou uma colcha de retalhos e aí eu decidi quebrar em dois (ou mais, holy fuck) pra poder manter a minha sanidade mental (que já não é lá essas coisas).
Continuem acompanhando a saga Batalha Espiritual Fortíssima da Liz pra botar essa fic em palavras. Quem sabe o próximo capítulo eu apareço aqui falando que eu entalhei o rascunho em pedra.
(See the end of the chapter for more notes.)
Chapter Text
O apartamento ficou quieto demais quando Lorena saiu.
A notícia do e-mail tinha caído como uma bomba e agora ela olhava para os destroços sem saber o que fazer.
Bom... Isso não era cem por cento verdade.
Ela sabia exatamente como iria agir e o que iria dizer quando Lorena voltasse.
Já estava planejando tudo na sua cabeça — iria falar com uma voz calma, usaria as palavras certas e deixaria bem claro que ela sempre estaria lá, que esperaria, que ligariam todos os dias, que trocariam mensagens e fariam chamadas de vídeo, que até mandariam cartas como victorian englishwomen, que seis meses eram exatamente isso: seis meses e não uma despedida.
Colocar em palavras, amar e apoiar Lorena em voz alta era algo fácil para ela, quase como uma segunda natureza.
Mas o quê que ela fazia com os próprios sentimentos? O que ela fazia com os pensamentos que tentava controlar, mas que corriam rápido demais para lugares que ela não queria ir?
Não havia racionalidade que explicasse a parte dela que já estava sentindo a saudade de alguém que ainda estava na mesma cidade, que provavelmente estava neste momento servindo drinks de cores vibrantes que custavam caro demais com uma porção de dadinhos de tapioca com molho de maracujá e explicando o cardápio para alguma mesa de turistas.
Não havia roteiro que fizesse o medo parar de martelar seu coração. Que fizesse que sua parte racional parasse de calcular qual seria o resultado de seis meses de ligações com fuso horário, de dormir no lado de cá de uma cama grande demais, fria demais, de habitar um apartamento que era para ser delas duas juntas e que agora seria um espaço vazio e silencioso demais, de imaginar como seria a Inglaterra e quem a namorada conheceria lá.
Lorena era brilhante. Sensível. Talentosa. E claro, extremamente linda. E Eduarda sabia que Oxford era cheia de gente exatamente como ela. Gente interessante, inteligente, escritores, pesquisadores, professores, acadêmicos em geral. Pessoas que iam seguir vidas com empregos que nunca a deixariam na situação de viver tensa, esperando o celular tocar anunciando uma tragédia em algum plantão da delegacia.
Eduarda apertou a mandíbula imediatamente, irritada consigo mesma. Ela forçou esses pensamentos para algum baú no fundo da mente. Não havia como prever o futuro ou os sentimentos das pessoas. Era isso que significava ser humano.
Ela iria ser forte o suficiente para segurar as rédeas das próprias inseguranças sem transformar o sonho da namorada em um peso.
Lorena merecia cada linha daquele e-mail. Merecia Oxford, os novos conhecimentos, os professores, os contatos, as amizades, a experiência, o reconhecimento. Merecia passar seis meses respirando literatura, estudando em salas de aula dentro de castelos que haviam até sido cenários de filmes famosos, escrevendo até de madrugada enquanto tomava chá Earl Grey com um pingo de leite de aveia, comia scones de limão siciliano e vivia um sonho que poucas pessoas sequer tinham chance de sonhar.
E Lorena havia sonhado com aquele curso, com Oxford, antes de sonhar com muita coisa, até mesmo com ela.
Eduarda já estava certa de que não ia ser o motivo pelo qual ela não fosse, ainda mais agora que havia sido prestigiada com uma bolsa integral.
Depois de andar sem rumo pelo apartamento por algum tempo, perdida em pensamentos, ela acabou decidindo cochilar um pouco para ver se a cabeça desacelerava antes de Lorena chegar para que elas conversassem mais tranquilas.
Dormiu por algumas horas e acordou suada e desorientada, o rosto marcado pelo travesseiro e o ventilador girando preguiçoso acima da cama sem ajudar em nada no quarto que agora estava abafado. Tinha até se esquecido de ligar o ar-condicionado.
A primeira coisa que fez foi pegar o celular.
Nada de novas mensagens.
Mas ainda era relativamente cedo e faltava um tempo razoável para o expediente de Lorena acabar, então provavelmente devia estar ocupada demais para mexer no celular. Colocou o dela para carregar na mesinha do lado da cama e decidiu ir tomar um banho rápido para poder se preparar para fazer absolutamente nada enquanto esperava a namorada.
Depois de um banho longo, Eduarda fez um sanduíche simples e o levou para o quarto, abrindo a Netflix na TV e deixando o apartamento ganhar o barulho tão conhecido das vozes dos personagens de Brooklyn Nine-Nine, que era o melhor barulho de fundo que ela conhecia para noites assim.
Ficou um tempo assistindo sua série de conforto e dando mordidas distraídas até acabar com o lanchinho. Era confortável assistir alguma coisa que ela já conhecia de cor e podia deixar rodando sem precisar prestar atenção de verdade, só deixando o cérebro relaxar, ainda mais com o Bóris agora deitado nas suas pernas.
Às 12h37 ela pegou o celular, abrindo na conversa delas no whatsapp. Ainda não havia nada novo, então ela digitou rápido, dando uma risadinha enquanto via Jake Peralta fazendo alguma idiotice na televisão.
Duda:
Oi meu amor, vc vai querer que eu te busque?
Mandou a mensagem, colocou o celular na mesinha de volta e voltou a atenção para a série, já antecipando que seu episódio favorito de Halloween estava chegando. Lorena ia responder em algum momento, agora devia estar muito corrido no bar enquanto os funcionários encerravam os atendimentos da noite.
Riu tanto do episódio de Halloween que assustou o Bóris da cama.
— Aaah Bóris! Volta aqui, neném gordinho da mamãe.
Boris miou o que ela jurou que era um xingamento e saiu de vez do quarto sem olhar para trás.
Eduarda suspirou e esticou o braço para pegar o celular de novo. Franziu o cenho quando percebeu que já havia passado do horário de saída de Lorena e quando reparou que ela nem sequer havia visualizado a mensagem anterior.
Começou a digitar novamente.
Duda:
1:46am:
Atrasou aí hj?
Mandou a mensagem e deixou o celular ao lado da coxa, voltando o olhar para o brilho da TV, mas a partir dali ela já não conseguia acompanhar a série direito.
Eduarda até soltava uma risada pequena em um momento ou outro, mas isso começou a diminuir conforme o tempo passava e o WhatsApp continuava exatamente igual, com apenas um tick cinzento.
Ela tentou puxar pela memória se Lorena tinha comentado sobre alguma festa no bar, algum evento que justificasse o atraso, mas não conseguia lembrar de nada específico.
Talvez algum cliente bêbado enchendo o saco depois do horário...?
O episódio acabou e ela percebeu que não fazia ideia do que tinha acontecido nos últimos vinte minutos. O olhar havia fugido para o celular a cada cena.
Será que a bateria de Lorena tinha acabado e não tinha ninguém com um carregador para lhe emprestar?
Será que Eduarda deveria só dirigir logo até o bar? Mas se a namorada já estivesse voltando elas iam acabar se desencontrando...
Duda:
2:29am:
Meu bem, vc ta voltando?
Mandou a mensagem e apoiou o queixo no joelho dobrado, esperando o tick solitário virar dois e eles ficarem azuis, mas nada aconteceu. Ela passou a mão pelo rosto devagar, sentindo o início de uma dor de cabeça pulsar perto da têmpora.
Resolveu ligar. Chamou, chamou, chamou e caiu na caixa postal. Eduarda desligou antes da mensagem terminar e ficou olhando para o teto, sem saber o que fazer.
Não tinha o telefone de ninguém do bar e nem sabia se o lugar tinha telefone fixo — o Google também não tinha aquela informação. Ela respirou fundo, tentando se acalmar, mas depois disso o celular virou extensão da sua mão. Dedos nervosos desbloqueavam a tela o tempo inteiro, mas não encontravam nada de diferente.
Duda:
2:52am:
Lô, ta tudo bem?
Ficou conversando com a Nia e os meninos?
N tem problema!
Só me liga qnd ver aqui, ta?
Ela releu a própria mensagem dez vezes antes de enviar, tentando decidir se parecia calma o suficiente. Não queria dar uma de namorada controladora, só estava preocupada.
O quarto havia esfriado. Eduarda puxou o lençol distraidamente até a cintura enquanto encarava a tela do celular esperando… esperando… esperando…
Sua mandíbula estava tensa. A perna balançava sem parar debaixo do lençol.
Esperando... esperando... esperando...
Nada.
Passou a mão na nuca e chutou o lençol para o lado de novo enquanto clicava “ligar” novamente, já apertando o celular com força demais entre os dedos.
Caixa postal.
Quando deu 3:18, ela desistiu da Netflix e colocou qualquer coisa no History Channel só para o apartamento não parecer silencioso demais. Precisava preenchê-lo com alguma voz humana para não enlouquecer no silêncio da madrugada.
A ruiva tamborilava as pontas dos dedos na capinha verde do celular enquanto a voz masculina de um locutor com um sotaque britânico pesado falava seriamente sobre alienígenas terem construído as pirâmides do Egito.
Ela encarava o contato de Zenilda que agora estava aberto no celular, cogitando ligar para a quase-sogra para perguntar se por algum acaso Lorena tinha ido para o flat da mãe depois do trabalho para conversar sobre o e-mail, mas também pensando se seria exagero ligar para ela àquela hora da madrugada e se não iria a preocupá-la sem motivo se a filha não estivesse lá.
Eduarda estava quase apertando para ligar quando ouviu o som metálico da chave raspando torto e errando a fechadura do lado de fora.
Uma tentativa.
Outra.
Eduarda já saía da cama às pressas antes da terceira, jogando o celular no travesseiro no caminho até a porta e ouvindo o controle remoto caindo no chão.
Lorena mal conseguia entender como ainda estava de pé.
Ela mal se sentia humana. Sentia-se apenas um corpo. Uma pilha de carne e ossos cujo cérebro comandante havia desligado todas as suas funções complexas, sobrando apenas o modo mais primitivo: a vontade de chegar a um lugar seguro.
Somente esse diretivo a mantinha em movimento. Porque ficar parada não a levaria para Duda. Então ela arrastava os pés pela calçada irregular cheia de árvores com raízes traiçoeiras, já que levantar direito os joelhos para dar passos parecia exigir esforço demais.
Toda vez que diminuía o ritmo, o mundo se inclinava nos eixos e o corpo ameaçava ceder junto àquela sensação horrível de tontura e náusea.
As lembranças das últimas horas se embaralhavam e se esvaíam rapidamente — quanto mais ela tentava agarrá-las, mais elas escorregavam. Parecia que estava tentando segurar fumaça com as próprias mãos.
Tudo parecia ter uma qualidade distorcida, irreal. Lorena tinha a sensação estranha de estar sonhando, mas não um sonho normal, daqueles que você acorda descansado e pronto para mais um dia. Não, parecia ser um daqueles sonhos febris e desconexos em que os lugares mudam sem explicação e o corpo parece pesado demais para obedecer direito qualquer comando, e, quando você acorda está mais exausto do que quando foi dormir.
A ideia da namorada aparecia em sua mente como a única certeza que tinha. O único pensamento coerente. A única imagem nítida: cabelos ruivos sedosos, olhos de jabuticaba que brilhavam feito holofotes. O nariz mais lindo do mundo que parecia ter sido esculpido pelo próprio Michelangelo. A boca rosada, desenhada e macia.
Precisava chegar até ela.
Algo sob a pele de Lorena lhe parecia sujo, poluído. Ela sentia um suor frio acumulando nas costas. O cabelo colava na nuca e na testa, e um gosto amargo subia pela garganta toda vez que engolia em seco. As árvores da rua balançavam devagar acima dela, e o vento frio da madrugada invadia suas costas sob a camiseta curta, arrepiando a pele úmida.
Pinheiros parecia outro lugar de madrugada. Sem música ou sons da narração de alguma partida de futebol escapando dos barzinhos e restaurantes. Sem gente fumando na calçada e pessoas passeando com seus cachorros ou bebês em carrinhos.
A rua delas estava quieta do jeito que só fica de madrugada, e só em ruas residenciais, quando até os cães desistem de latir. Não havia nenhuma janela acesa. Nenhum barulho de tv. Só ela, o barulho dos próprios passos arrastados e o ruído distante de um ônibus em alguma avenida mais longe.
Seguiu cambaleando. Ela estava tão perto de casa — de Duda — que quase conseguia sentir nos seus ossos.
Mas ainda havia uma faixa de pedestres e mais alguns metros entre ela e o alívio. As linhas brancas tremiam sob seus olhos desfocados, iluminadas apenas pelos postes que emitiam uma luz amarelada que, mesmo suave, machucava seus olhos, como holofotes queimando as retinas.
Lorena ficou parada alguns segundos, encarando as linhas como se precisasse lembrar como atravessar uma rua. Puxou o ar e atravessou sem realmente registrar os próprios movimentos.
Quando já estava quase do outro lado em segurança, sua visão escureceu por um segundo. Foi o suficiente para que ela perdesse a passada e tropeçasse ao tentar subir o meio fio.
O corpo inteiro foi lançado para frente antes que ela conseguisse entender o que estava acontecendo, e ela tentou amortecer a queda reflexivamente com as mãos.
A esquerda recebeu quase todo o impacto primeiro.
A dor explodiu pelo punho que já latejava e subiu até o cotovelo como um choque, fazendo-a perder o ar e quase a consciência.
As palmas derraparam no concreto áspero, arrancando a pele numa ardência tão forte que demorou um segundo inteiro para que o cérebro conseguisse entender. Mas, quando entendeu, iniciou um incêndio em seus nervos.
Lorena soltou um som estrangulado da garganta, dobrando o braço esquerdo contra o corpo como se pudesse isolar a dor ali.
Ficou ajoelhada no chão por alguns segundos, respirando de forma irregular enquanto sentia a água suja acumulada perto da sarjeta encharcar o joelho do jeans e a barra das calças, atravessando o tecido gelado até a pele, e pequenos grãos de areia, pedrinhas e sujeira incrustados nas palmas, que agora estavam em carne viva.
Pronto. Agora ela se sentia suja por dentro e por fora.
E, mesmo assim, o que mais incomodava era aquela sensação horrível rastejando sob a pele, como se precisasse arrancar ou esfregar até limpar algo do próprio corpo e não soubesse ou não se lembrasse o quê.
Lorena grunhiu e tentou se levantar.
Na primeira tentativa, quase caiu de novo.
Só conseguiu se erguer quando se arrastou até conseguir se ancorar na parede descascada do prédio mais próximo, mas o estômago se revirou perigosamente quando o seu cérebro captou que havia colocado peso na mão esquerda.
Soltou o ar lentamente e olhou para cima.
Ali, mais para o meio da rua, finalmente avistou o prediozinho delas. Era pequeno, de tijolos aparentes encardidos, com portões antigos e enferrujados em vários lugares. Ficava escondido entre dois condomínios altos, modernos e brancos demais, quase engolido pelos vizinhos maiores, como uma memória esquecida no meio da cidade.
Ela estava se afogando no fundo do oceano, mas agora finalmente podia enxergar o caminho para a superfície.
Os últimos metros pareceram durar uma eternidade e, ao mesmo tempo, só alguns segundos. A realidade e o tempo já não faziam sentido, e tudo parecia uma viagem psicodélica como Alice Através do Espelho.
O portão pesado cedeu quando ela empurrou com o ombro depois de ativar o leitor facial — isso e armários inteligentes sendo as únicas modernidades da portaria delas.
Esboçou um sorriso pequeno e exausto para o vaso torto horroroso que a vizinha do andar de cima insistia em deixar na entrada, mesmo sob reclamações dos outros moradores e do síndico.
O apartamento delas era logo o do térreo.
Pequenos milagres.
Quando chegou no corredor certo e ficou de frente para a porta do apartamento delas, os dedos tremiam tanto que mal conseguiu tirar as chaves do bolso. E, quando conseguiu, deixou-as cair.
O barulho metálico ecoou alto demais no silêncio da madrugada naquele corredor quieto.
Lorena ficou encarando as chaves por longos segundos, sentindo os olhos arderem e lacrimejarem, já cansada demais, querendo desistir e desmoronar ali mesmo.
Mas ela estava tão perto.
Duda estava logo ali, atrás daquela porta.
Respirou fundo, engoliu um soluço e se obrigou a abaixar e pegá-las.
As mãos ainda tremiam. A fechadura dançava na frente dela. Os dedos demoraram para obedecer. A chave arranhava em volta da fechadura, errava, voltava, errava de novo.
Até que o metal encontrou o lugar certo.
A fechadura cedeu com um clique que soou como um suspiro.
Notes:
Título do capítulo vem de: Shake it Out - Florence and the MachineBeijos de novo para as minhas cheerleaders: as Tejinhas, minha TC, Letícia, Mama Janet e Let, minha nova amiguinha também escritora. Ela escreve a fic "Sinfonia Para um Coração em Análise." Se você ainda não leu, tá esperando o que, mona?
Eu não podia indicar (e amar) mais!!!Uma notícia pra vocês: nesses últimos dois dias eu também comecei um outro projeto Loquinha e estou MUITO animada. Ainda está na etapa de racunho, brainstorming e pesquisas (o tema desse projeto é complexo e estou fazendo muuuitas pesquisas vendo documentários, filmes, lendo artigos, livros e revendo uma série).
Vou dar um spoiler pra vocês:
.... alguém aí gostava de Mindhunter? 😏Deixem comentários para a póbi!
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