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Mais um ano, mais dezenas de bailes e reuniões para comparecer na corte, como foram nos outros dois passados — 1609 e 1610. Como governador, Smith e Pocahontas, como embaixadora estavam sempre sendo convocados através de cartas pelo Rei para relatarem com mais detalhes como a colônia caminhava em Jamestown, que sinceramente… a situação não é das melhores; longe disso.
O casal está tentando manter as relações pacíficas. Atrasando o inevitável.
Eles são obrigados a seguir toda esse protocolo antes de falarem com o próprio, então aqui estão, participando de mais um desses bailes. Alguns rostos são conhecidos pelo John por ter frequentado vários no passado, outros por Pocahontas, mas nada mais do que apenas um vislumbre… Sua mente já andava cheia de preocupações para qualquer lembrança de longo prazo. O salão de festas do palácio com uma aparência cintilante, aparentemente cheio de vida, muita luz e glamour como sempre; várias duquesas, barões, nobres, aristocratas… a mais alta casta inglesa e, a mais podre também. A verdadeira imundícia.
— Querido, você não quer que eu pegue algo para comer? — desviou o olhar para uma mesa no canto direito do salão.
Estava repleta de sobremesas e bebidas.
— Sim, por favor — John disse calmamente à esposa. — Ah, e Pocahontas, quando você voltar, vamos sair um pouco para o jardim. — falou mais baixo, para que somente ela pudesse ouvir.
A princesa abriu um sorriso e confirmou, deixando as mãos seguras e geladas dele para ir até a mesa.
Sua amada estava estonteante. Sempre que participava destes bailes, Pocahontas não optava por prender o cabelo em penteados mirabolantes ou colocar perucas, nem maquiagens chamativas, muito menos acessórios caros que trocariam o colar de sua mãe. Smith entendia e apoiava as decisões dela, sendo que as únicas coisas que Pocahontas adequa ao padrão europeu são os vestidos e calçados. No início era terrível e muito desconfortável de usar, principalmente os espartilhos, mas acostumou-se.
Sua beleza natural e presença se destaca entre todos sem ela precisar fazer o mínimo esforço por isso. Não precisava de coisas frívolas.
Enquanto ele esperava por sua volta, uma mulher se aproximou. Baixa, com um grande e pomposo vestido azul, cabelos grisalhos, pele clara e olhos verdes, além de algumas marcas visíveis no rosto, que pó nenhum conseguiria esconder devido a idade.
— Olá, Capitão Smith, — o cumprimentou com uma mesura.
— Oh, olá, senhora, — respondeu. — Perdão, mas… não a conheço—
— Sim, não conhece, — foi interrompido. A dona aumentou os olhos — pois esta é a primeira vez que venho falar com o senhor. Sou a duquesa de Whitmore, Hawthorne Margaret. Prazer em conhecê-lo.
Se apresentou com um sorriso sutil, sem mostrar os dentes.
— O prazer é todo meu, senhora Hawthorne. — jogou seu charme natural, beijando rapidamente a mão direita.
— Então, o que deseja?
— Oh, nada… não é favor algum. Apenas vim lhe parabenizar.
— Parabenizar? Desculpe, mas pelo quê? — indagou, confuso.
John não veio ao baile para ser condecorado ou reconhecido por algum feito ou título; estava ali apenas por diplomacia, então o que poderia ser?
— Ora… Vamos, não se finja inocente — agora sorriu, com os dentes amarelados e gesticulou com as mãos, cheias de anéis.
Seu olhar se desviou para a princesa, que conversava com alguém, antes de voltar sua atenção a ele.
— Por ter civilizado a princesa dos selvagens tão bem.
Droga. Apenas com esta primeira linha de diálogo, Smith soube o que iria escutar e criou um asco da mulher de imediato. O rastro de sorriso que tinha em seu rosto sumiu e ele colocou as mãos para trás, entrelaçando nas costas. Tentou manter uma reação neutra, pois queria que ela continuasse falando.
Ele tinha uma intenção em mente.
— Esta é a primeira vez que eu e meu digníssimo marido comparecemos a um baile de tão alto prestígio do Rei James — pegou um cálice de vinho que um copeiro ambulante ofereceu. John recusou educadamente — e o seu comportamento realmente nos surpreendeu. Ouvimos falar muito de vocês… da primeira união reconhecida diante da Corte e da Igreja de um inglês e da filha do líder dessas… pessoas. — deu um gole. — Pensamos, é claro, que tudo é apenas por diplomacia e pelo equilíbrio da colônia, uma espécie de tática nova. Mas pelo que reparamos, até fingir que você a ama genuinamente, o faz muito bem. Cada olhar, cada dança é impressionante! Parecem que estão profundamente apaixonados um pelo outro — isso não é para qualquer um, rapaz. Em todos esses anos, nunca vi isso acontecer em colônia alguma da Inglaterra… É histórico!
Levantou a taça com entusiasmo e riu. Indigente. Falsa. Sem alma. Nojenta. Cínica. Vazia. Conclusões que ele estava tendo desta mulher enquanto ouvia tais palavras. John continuou se controlando, mesmo com o sangue fervendo e as mãos suando, inquietas atrás de si. Deus, se ele pudesse…
— Que sorte, o fato dela ser tão submissa assim, hm? — balançou a bebida, com uma cara de demônio. — Deve ter dado muito trabalho colocá-la no lugar… sei muito bem que esse tipo é incrivelmente violento. Enfim, era apenas isto que queria lhe dizer. Aceite não somente a minha parabenização, mas do meu esposo também. É visível que a senhorita Rebecca foi muito bem disciplinada. Tens uma coragem e tanto.
Pegou outra taça de vinho.
— Então? Não irá dizer nada? Ficou calado durante toda a minha fala… estou certa, não estou? — abriu um sorriso convencido. — Ainda bem que ela é muito bela… — olhou para ele de cima a baixo. — São um casal bonito, devo admitir.
“Mas que audácia dessa…!” Ele pensou. John limpou a garganta, se preparando para o que iria falar.
— Erm… Não é que eu não quis dizer nada, senhora. Apenas estava esperando que terminasse sua fala. Felizmente, devo dizer que a única coisa que concordei foi a sua opinião de que minha amada esposa é belíssima. E sobre a parabenização, fiquem para vocês. Não tenho a menor vontade de recebê-la.
Se o loiro pudesse cuspir no chão ao lado, o faria. A duquesa engasgou com o vinho e abriu os lábios para retrucar, mas ele foi mais rápido.
— Acabei de dizer que a deixei falar. Nada mais justo do que a senhora me ouvir agora, certo?! — abriu um sorriso sarcástico.
Nada mais que prazer, isso era o que ele sentia ao retornar dessa forma a todos que viessem a ele com este mesmo tipo de conversa. Ver a cara deles de incrédulos, pasmos e surpresos é impagável. Um verdadeiro entretenimento, o diverte. E o melhor? John pode dizer tudo isso sem ter o mínimo medo de ser prejudicado.
— Pois bem, a única parte diplomática que temos em nosso casamento é o nosso comparecimento e presença diante do Rei James e da Corte, além da minha posição como governador de Jamestown, que isso fique bem claro. Me uni a Pocahontas por livre e espontânea vontade, assim como ela a mim, pois nos amamos em corpo e alma. Não fingimos nenhuma interação entre nós em nenhum momento, e a minha mulher não é nenhuma selvagem. Ao nos casarmos, o povo dela passou a ser o meu povo, sendo assim, não aceito nada menos que respeito. — se atreveu a esboçar uma reação de desdém.
A duquesa continuou escutando, impaciente. Para ela, suas respostas eram tão absurdas e incongruentes que ficou indignada, paralisada no lugar.
— E sobre o seu último comentário infeliz… A minha esposa não é submissa. Pocahontas não é minha escrava ou serva, não sou dono dela, não a comprei. Se o nosso relacionamento transparece harmonia é porque nos amamos e a nossa união é prezada por nós dois. Ela quis casar comigo e eu quis casar com ela, simples assim. E, como assim “povo extremamente violento”? Desconhecidos invadem a sua moradia… — John parou por um momento, recalibrando a fala. Infelizmente ele tinha que se conter. Respirou fundo. — Olha, eu… só quero dizer que acho melhor a senhora rever quem, de fato, é selvagem aqui. Nada disso é falso, o amor que sinto pela Pocahontas não é falso, nunca foi. Eu amo aquela mulher com todo o meu ser, e nenhum comentário preconceituoso como o seu mudará isso. — exclamou na cara dela, com a expressão séria e o olhar fixado na duquesa. — Espero que tenha ficado claro. Saiba que não aceito comentários deste tipo.
— Há! — pela expressão, a velha até parece que vai explodir. — É uma pena que um homem tão digno e inteligente como você tenha se contaminado desta forma!
Ele olhava com frieza para ela e para o cálice sendo prensado na mão esquerda. A raiva era tanta, que ela tremia. Não aceitou ser contrariada, como a maioria. John estava acostumado com este tipo de comportamento, parecia até que vinha de fábrica.
— Olha, no passado, eu pensava assim como você. Eu era pobre, imundo de espírito, mas ela abriu os meus olhos… espero que você os abra também. Algum dia, dona.
— O quê?! E me rebaixar ao seu nível…? Nunca! — olhou para ele com desgosto, como se o capitão tivesse se tornado alguém inferior, independente do título que carregava.
Não é a primeira vez que isso acontece, nem será a última.
— Seu tipo de tratamento com aqueles que são diferentes de você não me surpreende.
De repente a megera começou a rir, e alto. Isso o surpreendeu.
— Quase caio na sua armadilha, Capitão Smith… Mas você não conseguirá me deixar irada. Na verdade, sinto pena de você… deveria sentir vergonha.
A vontade de dizer algo realmente ofensivo só crescia dentro de si, mas ele tinha que se manter neutro, pois o salão estava cheio de pessoas circulando por todos os lados. Ao menos conseguiu dizer tudo o que gostaria.
Um clima terrível se instaurou entre os dois.
— Ah, graças a Deus! — sussurrou ao ver Pocahontas se aproximando com um pequeno prato em mãos. — Você voltou, querida.
Sorriu aliviado, como se ela tivesse o salvado de um perigo iminente. Pocahontas saudou a duquesa com toda a educação, mas ficou confusa e desconcertada ao ver que a mulher aparentava não estar muito bem, além dela não tê-la respondido de volta e nem ter se apresentado.
— John, o que aconteceu? — sussurrou.
— Quando sairmos, te conto. — sussurrou de volta, então a beijou, na frente da senhora. — Bem, Lady Hawthorne, — sorriu, convencido e orgulhoso da última cartada — com licença, sim?
Fez outra mesura antes de deixar a velha boquiaberta e escandalizada, transbordando de raiva atrás deles.
Os dois ficaram calados, comendo o que ela trouxe no prato até chegarem ao centro do jardim, bem distante das pessoas e holofotes.
— Agora você pode me dizer o que aconteceu?
— Não foi minha culpa, eu juro. Tá tudo bem, só… só respondi ao nível das palavras que aquela… coisa, falou para mim. — desviou o olhar, se irritando ao lembrar-se.
— O que ela disse? John, você sabe que não podemos ficar criando inimigos por aí! Precisamos ser receptivos e gentis com todos, por mais difícil que possa ser. Há uma responsabilidade muito grande em nossas costas—
— Eu sei, ok. Eu sei disso, Pocahontas, mas quando eles falam mal de você… do seu povo, da nossa união, eu não consigo me controlar. Você sabe como eu sou.
Mexeu no cabelo, desfazendo um pouco do penteado jogado para trás, fazendo suas mechas clássicas voltarem para a frente do rosto.
— Não consigo aceitar isso. Desculpe, mas tenho que responder! — gesticulou. — O fato de você ser minha esposa não dá a eles nenhum direito de faltar respeito com você, comigo! Não posso aceitar essa gente te inferiorizando, Pocahontas. — apontou para as escadarias do castelo ao longe. — E era isso o que aquela megera estava fazendo com você. Ela veio até mim somente para dizer coisas terríveis em relação a você, a nós, a tudo o que estamos construindo!
Continuou apontando irritado, triste… com vários sentimentos ruins, misturados dentro de si.
— Sempre que escuto coisas do tipo, preciso me reprimir… parece mais uma tortura psicológica. Odeio, odeio isso — cobriu o rosto com as mãos.
Ela entendeu o ponto dele, e entendeu muito bem. Então, Smith sentiu as mãos enluvadas dela tocarem as suas, tirando-as do rosto para que os dois ficassem frente a frente. Seu semblante demonstrava tristeza e cansaço.
— Ah, John… obrigado por sempre me proteger, querido. Obrigado.
Pocahontas o envolveu em um abraço. Discretamente, algumas lágrimas solitárias começaram a descer do rosto dele.
— Não sei o que seria sem você. Eu te amo.
— Eu também. Desculpe, você está certa. Me deixei levar mais uma vez.
— Não, não precisa me pedir desculpas, esquece isso. Enquanto você estiver ao meu lado, enquanto conseguirmos manter o máximo de paz possível no lugar em que vivemos e segurança àqueles que amamos… vai ficar tudo bem. Esses comentários não significam nada para nós. Já passamos por coisas piores, John. Você sabe.
— Sim.
— Isso! — segurou o rosto dele entre as mãos, limpando as lágrimas. — Ignora tudo isso. Somente nós dois sabemos pelo que estamos lutando, e ninguém fará isso por nós.
Encostaram as testas, ficando extremamente próximos, buscando consolo.
— Nós nos amamos, e é isso o que importa. Eles não entendem isso e nem precisam entender se não quiserem.
— Sim, sim, você tem razão, Pocahontas — fechou os olhos e apertou um pouco mais as mãos dela. — Como sempre, obrigada por me acalmar.
Riram brevemente, descansando no conforto mútuo um do outro. Ele voltou a pensar no quão milagroso era tê-la ali, em seus braços, tão perto.
— Falta pouco. Daqui a alguns dias estaremos de volta ao lugar que pertencemos.
— Sim. Estaremos — suspirou. — É tudo o que eu quero. — disse no ouvido dela.
Do jardim, os dois escutaram o anúncio de que a primeira dança da noite se iniciaria.
— Ouviu?! — Pocahontas perguntou. — Vamos! Eu ainda quero dançar com você essa noite. — abriu um sorriso enorme, daqueles que o deixavam sem ar.
Sua esposa fica tão linda exposta a luz da lua.
— Às suas ordens, querida. — declarou com tanta sinceridade e ternura na voz que a fez derreter.
John a deu um último beijo antes de guiá-la de volta ao grande salão do palácio e todos começarem a dançar.
