Chapter Text
80 anos d.C
O sol de Roma não era um aliado; era um carrasco. Ele subia no horizonte tingindo as colunas de mármore do palácio imperial com um laranja sangrento, antecipando o que estava por vir na arena. Dentro de seus aposentos, Draco Malfoy não dormia. Ele permanecia de pé diante da varanda, observando a silhueta colossal do Coliseu à distância, uma fera de pedra esperando para ser alimentada.
E o melhor prêmio da história do Coliseu era ele… Draco Malfoy, o príncipe ômega indesejado pelo império e a família. Tudo estava saindo do seu controle desde o dia que se soube ser ômega, seu pai o Imperador, Lucius o banhou de ouro a vida toda para chegar o fatídico dia onde se manifestou ômega aos quatorze anos. Sua mãe que o enchia de palavras sobre como se orgulhava de tê-lo cessaram só sobrando mágoa por não dar luz ao único filho que podia ter antes de se tornar estéril ser ômega. Draco foi tratado com desdém até mesmo pelo povo que diziam amá-lo desde o berço.
De um sucessor ao trono, Draco foi rebaixado ao filho que Lucius tinha que casar logo para que desse fruto a um imperador alfa. Mas sabia que o imperador não o deixaria se casar com qualquer um, mas com o império em paz, sem inimigos que ousasse os enfrentar e alianças fortes já estabelecidas por acordos, Lucius por sua própria diversão e entretenimento por sangue anunciou a mão de seu filho ao gladiador vencedor no Coliseu. Roma foi a loucura, os plebeus ficaram desacreditados e ademais os escravos. O imperador era tão louco assim? Ou só odiava tanto ter um filho ômega que qualquer genro bastasse mesmo que tivesse vindo da escória da sociedade?
Draco mordeu os lábios nervosamente.
— Dominus? — Uma voz tímida quebrou o silêncio fúnebre do quarto.
Draco não se virou. Ele sentia o peso do ouro antes mesmo de vesti-lo. Seus dedos pálidos apertavam o parapeito de mármore frio.
— Entre, Astória. — Sua voz era um sussurro ríspido, carregado de uma exaustão que não vinha do corpo, mas da alma.
A serva aproximou-se com passos leves, carregando a túnica de seda branca que custava mais do que uma vila inteira na periferia do Império. Atrás dela, dois escravos traziam bacias de prata com óleos essenciais de mirra e sândalo.
— O Imperador ordenou que o banho fosse breve, Dominus Draco. — Ela baixou os olhos, evitando o semblante tempestuoso do príncipe. — Ele o espera para o café da manhã antes que o cortejo comece. O povo já se aglomera nos portões. Eles gritam o seu nome.
Draco soltou uma risada seca, um som sem alegria que morreu no ar quente.
— Eles não gritam por mim, Astória. Eles gritam pelo espetáculo. Eles querem ver o herdeiro do Império ser leiloado como uma égua de raça no mercado de escravos. A única diferença é que, hoje, o preço será pago em sangue, não em denários.
Ele permitiu que os servos o cercasse. As mãos ágeis e treinadas começaram o ritual de purificação. A água estava na temperatura perfeita, os óleos eram os mais caros das províncias orientais, mas para Draco, cada toque parecia a preparação de um cadáver para o funeral.
Sua cabeça parecia ter um veneno que fazia questão de lembrar que ele se tornaria o prêmio daquela chacina.
Ele era o prêmio mais cobiçado de toda história. O herdeiro de Lucius Malfoy, o Imperador cujo poder se estendia até onde o sol ousava brilhar, havia decidido que a linhagem precisava de um "sangue novo e forte". E que forma melhor de escolher do que um torneio onde apenas o assassino mais letal sobreviveria? Independente da classe, seu pai parecia só querer se livrar dele logo.
Era um estorvo para a sua linhagem.
Enquanto a seda era ajustada sobre seus ombros e o cinto de ouro cravejado de esmeraldas era preso em sua cintura, Draco fechou os olhos. Ele tentou pensar em qualquer outra coisa, mas sua mente traiçoeira viajou. Ele vira as listas. Vira os nomes dos prisioneiros de guerra, dos criminosos e dos mercenários que haviam se inscrito voluntariamente pela chance de possuir o trono... e de possuí-lo. Entre centenas de nomes latinos e gregos, um nome escrito em pergaminho áspero fizera seu sangue congelar.
Harry Potter.
O bárbaro da província da Britânia. O homem que liderou uma revolta contra as legiões de seu pai e que fora capturado sob correntes de ferro, mas cujos olhos nunca haviam se baixado diante da coroa de Lucius.
— O bracelete, Dominus. — Astória interrompeu seus pensamentos, deslizando o ouro pesado em seu pulso.
Draco olhou para a jóia. Parecia uma algema.
— Meus pais já estão no salão?
— O Imperador e a Imperatriz o aguardam, senhor. O General Snape também está presente.
Draco inspirou profundamente, sentindo o cheiro do perfume de flores que tentava esconder o cheiro de suor e medo que ele imaginava emanar de si mesmo. Ele ajeitou a postura, erguendo o queixo com a arrogância que lhe fora ensinada desde o berço. Se ele era um troféu, seria o troféu mais inalcançável e frio que Roma já vira.
Ele atravessou os corredores decorados com afrescos de batalhas antigas. Cada passo ecoava no chão de mosaico. Ao chegar ao salão de refeições, o ar parecia ter ficado dez graus mais frio.
Sentado à cabeceira da mesa de cedro, Lucius Malfoy parecia uma estátua de marfim. Sua túnica era de um roxo imperial tão profundo que parecia quase negro, e a coroa de louros de ouro repousava sobre seus cabelos loiros, quase brancos, idênticos aos de Draco.
— Você está atrasado — disse Lucius, sem desviar o olhar do mapa da Germânia que analisava. — Um prêmio deve ser o primeiro a chegar para que os juízes possam admirá-lo.
Draco sentou-se, ignorando a comida. O estômago estava fechado.
— Eu não sou um prêmio, pai. Sou seu filho.
Lucius finalmente ergueu os olhos. Eram olhos de gelo, desprovidos de qualquer calor paterno.
— Hoje, Draco... você é ambos. E se o destino for gentil, o vencedor será alguém que eu possa controlar e dar a semente para que possa ter um filhote Alfa para arrumar a bagunça que você causou.
Do outro lado da mesa, Narcissa Malfoy mantinha o rosto impecável, mas seus dedos apertavam o cálice de vinho com tanta força que os nós das mãos estavam brancos. Ela não disse uma palavra, mas seu olhar para Draco era um grito de socorro silencioso.
Ter concebido um filho ômega para o imperador a envergonha, mas a ideia louca de seu Alfa de dar a mão de Draco a qualquer um que vencesse o Coliseu, era uma miséria. Se tinha dúvidas se Lucius ainda podia vê-lo como seu filho, já não as tinha mais.
— O torneio começa ao meio-dia — continuou Lucius, voltando ao mapa. — Soube que aquele escravo irá participar… Ele é o favorito da plebe. O "Garoto que Sobreviveu" às legiões. Como era mesmo o nome daquele selvagem?
Draco sentiu um aperto no peito.
— Ele deveria estar executado, não lutando no Coliseu.
— A morte rápida é para os fracos, Draco — Lucius sorriu, um gesto predatório. — Eu quero vê-lo ser estraçalhado na areia enquanto você assiste. Ou, se os deuses tiverem um senso de humor distorcido, quero vê-lo ajoelhado aos seus pés, pedindo sua mão enquanto o sangue de seus amigos ainda manchar suas unhas.
Draco levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente.
— Se me dão licença, preciso me preparar para o meu... leilão.
Ele saiu antes que o pai pudesse responder. Ele precisava de ar. Mas, em Roma, o único ar disponível estava saturado com o cheiro da morte que se aproximava.
…
O trajeto do palácio até o Coliseu foi feito em uma liteira fechada, protegida por cortinas de seda carmesim que balançavam ao ritmo dos passos dos carregadores. Lá fora, Roma rugia. Draco podia ouvir os gritos da plebe, o som de trombetas e o rufar dos tambores que anunciavam o início dos Jogos Imperiais. Mas, dentro daquele pequeno cubículo de luxo, o silêncio era sufocante.
Draco apertou o tecido da túnica entre os dedos. A ideia de Harry Potter vencendo o torneio não era apenas um ultraje político e sim um terror visceral que subia por sua garganta como bile. Se um gladiador desconhecido vencesse, Draco poderia, talvez, manipulá-lo. Poderia usar o ouro e a influência para transformá-lo em algo menos bruto com ele pensando positivamente.
Mas Potter? Potter era fogo. E ninguém doma o fogo sem se queimar.
Sua mente, traindo sua necessidade de compostura, arrastou-o de volta para dois anos atrás.
"As Fronteiras da Britânia
O frio era cortante, muito diferente do mormaço de Roma. Draco acompanhava o pai em uma inspeção nas fronteiras do Norte. As legiões haviam acabado de esmagar a última resistência dos rebeldes. O acampamento cheirava a fumaça e ferro.
— Aqui está ele — rosnou Lucius, chutando o calcanhar de um prisioneiro para que ele caísse de joelhos na lama.
Draco estava parado logo atrás, envolto em peles caras. Harry Potter estava acorrentado, o rosto coberto de fuligem e sangue, mas quando ele ergueu a cabeça, o mundo pareceu parar. Não havia derrota naqueles olhos verdes; havia um desafio tão puro que Draco sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com o inverno britânico.
Por um segundo eterno, seus olhares se cruzaram. Draco esperava ver súplica. Em vez disso, viu aquelas orbes esverdeadas com uma curiosidade sombria, como se Harry estivesse gravando cada detalhe do rosto do príncipe para reconhecê-lo quando chegasse a hora da vingança. Harry não desviou o olhar até Lucius querer o humilhar mais ao colocar o pé sob sua cabeça a afundando na lama e Draco precisou desviar o olhar e soltou o ar que não percebeu estar segurando forte no pulmão, o coração martelando contra as costelas de um jeito que ele nunca conseguiu explicar.
— Como ousa direcionar o olhar para meu filho quando o imperador está falando com você…!
O ômega assistiu seu pai levantar o rosto do bárbaro e com sua adaga o punir cortando profundamente sua testa onde parecia querer desenhar até estar satisfeito com o tanto de sangue que escorria pelo rosto dele. Largou a adaga com as mãos sujas de sangue e antes de ir até sua tenda junto com o General Snape cuspiu em Harry com todo o desprezo."
A liteira parou com um solavanco, trazendo-o de volta ao presente. As cortinas foram abertas pelo General Snape, cujo rosto era uma máscara de severidade sob o elmo de oficial.
— Chegamos, Dominus. Mantenha a cabeça erguida. O povo quer ver um deus, não um rapaz assustado.
Draco saiu da liteira, e o barulho do Coliseu o atingiu como uma onda física. Eram cinquenta mil pessoas gritando, um som que vibrava no estômago. Ele começou a caminhar pelos túneis internos, o caminho exclusivo que levava ao camarote imperial. As paredes de pedra eram úmidas e ecoavam os sons vindos de baixo: o tinir das espadas sendo afiadas e o rosnado das feras nas jaulas.
A cada passo, a imagem de Harry na lama da Britânia se fundia com a imagem de Harry nas celas da arena. Se Harry vencesse... Draco fechou os olhos por um breve segundo, quase tropeçando na própria túnica.
Se Harry vencesse, ele teria o direito legal de reivindicar Draco diante de toda Roma. O homem que ele vira ser humilhado e acorrentado agora teria a chave de seus aposentos. Ele imaginou as mãos calejadas de Potter, mãos que matam homens, tocando sua pele pálida. Imaginou o peso do corpo de um guerreiro sobre o seu, não em um ato de amor, mas de conquista. O pensamento o deixava entre o terror absoluto e uma centelha de algo proibido que ele se recusava a nomear.
A ideia de todos aqueles pretendentes a sua mão naquele Coliseu o assustava, mas sabia em seu âmago que Potter seria o mais cruel de todos com ele.
“Ele não pode vencer”, Draco implorou aos deuses em silêncio. “Por favor, deixe que qualquer mercenário sem rosto ganhe. Deixe que eu me case com um bruto silencioso, mas não com ele.”
Ele chegou ao topo da escadaria. A luz do sol o cegou por um instante enquanto ele entrava no camarote. Lucius já estava lá, sentado em seu trono, cercado por senadores que sorriam como hienas.
— Sente-se, Draco — ordenou o Imperador, apontando para a cadeira de marfim ao seu lado, adornada com peles de leopardo. — O primeiro ato está para começar.
Draco sentou-se, sentindo-se como se estivesse em um cadafalso. Ele olhou para a areia abaixo, ainda limpa e perfeitamente nivelada.
O portão sul rangeu ao abrir.
Um grupo de gladiadores entrou sob o clamor da multidão. No final da fila, caminhando com uma calma que parecia um insulto à morte, estava ele. Harry não usava camisa, apenas braçadeiras de couro e uma proteção no ombro direito. O sol refletia na pele bronzeada e nas cicatrizes que narram sua história de resistência. Lá de baixo, como se sentisse o peso do olhar de Draco, Harry parou. Ele não olhou para o Imperador. Ele inclinou a cabeça levemente para o lado e fixou os olhos verdes no camarote, exatamente onde Draco estava.
Desta vez, Draco não desviou o olhar. Ele não podia. O terror e a fascinação o mantiveram preso enquanto o gladiador levava dois dedos à testa, em uma saudação sarcástica na visão do platinado. O torneio havia começado. E Draco Malfoy nunca desejou tanto a morte de alguém quanto desejava a de Harry Potter naquele momento, simplesmente porque não suportaria a ideia de pertencer a ele.
