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A Comédia de Diógenes

Summary:

Diógenes foi expulso de casa, mas acabou sendo resgatado por um homem estranho e recluso que vive no meio do nada. Sem querer, Diógenes acaba salvando sua vida.

Notes:

Não esperem muitas atualizações.
O texto vai ser formatado e reformatado bastante, então talvez apareçam coisas novas no meio e trechos inteiros sumam porque eu decidi que sim.
Comentários que eu sequer sonhar que são bots ou spam receberão devido tratamento porque eu sou
N O J E N T O.

Chapter 1: Dante

Chapter Text

Estava chovendo uma chuva horrível durante um verão pavoroso. Depois de uma onda de calor assustadora a frente fria finalmente chegara, mas trouxera consigo um terror torrencial. Diógenes tinha apenas as roupas do corpo e um celular descarregado enquanto encarava a tempestade em uma estradinha de terra em algum lugar da região serrana do Rio de Janeiro. O temporal fazia chover também cada vez mais preocupações em sua cabeça. Sem conseguir ver direito um palmo a sua frente, esbarrou em uma mureta de pedra que o guiou até uma casinha onde era possível ver uma luz acesa difusa entre as lâminas de chuva.

Já devia ser tarde, mas ele não sabia quanto mais tempo aguentaria debaixo de toda essa água. Começou a bater na porta, desesperado e sem pensar na reação do dono da casa, apenas rezando para que lhe deixassem passar a noite.

A porta se abriu e ele se deparou com um homem alto e esguio de feição séria, quase inexpressiva. Era difícil focar em seu rosto, a pouca luz que os cercava já era o suficiente para cegar os olhos cansados de Diógenes. Antes que pudesse dizer algo, sua vista escureceu de vez e não restou muito de sua consciência para processar o impacto de sua queda.

 


 

Ele acordou ao som de goteiras. Enquanto recuperava os sentidos, percebeu que estava sendo aquecido por um cobertor pesado e uma bolsa de água quente. A próxima coisa que percebeu foram as roupas secas que estava usando, um pouco apertadas, principalmente ao redor dos músculos dos braços e das pernas. Como se pudesse ler sua mente, uma voz ecoou pelo quarto.

- Eram as maiores que eu tinha. Fico aliviado que tenha acordado, cheguei a pensar que não abriria mais os olhos.

Diógenes virou a cabeça para encarar o seu salvador de pé diante da porta, braços cruzados em torno do próprio tronco enquanto o observava cautelosamente. A figura era ainda mais peculiar a luz do dia: ele era pálido e tinha cabelos castanho-claros levemente ondulados em um corte rente a cabeça, as mechas irregulares.

- Que... Horas? – Foi a única coisa que conseguiu balbuciar com um fiapo de voz.

- Por volta de duas da tarde. Você chegou aqui quase meia noite, dormiu bastante. – Ele se sentou na beira da cama. – Antes de continuar meu papel de anfitrião, gostaria de saber como chegou a esse pedacinho de fim do mundo.

- Eu vim... Andando...

Ele arqueou uma sobrancelha e pousou uma mão esquelética na testa do rapaz.

- Não foi bem isso que eu quis dizer, mas vou aceitar sua resposta por hora. Vou lhe trazer sopa, você continua frio como um morto. – Se levantou sem muita cerimônia e saiu do cômodo, fechando a porta atrás de si.

 


 

Diógenes precisou ser alimentado, algo que o incomodava profundamente, mas não estava em posição de recusar comida. Ficou envergonhado ao perceber que aceitou por impulso a segunda tigela de sopa quando lhe foi oferecida. Antes que o outro homem pudesse sair, finalmente teve chance de perguntar:

- Qual seu nome? – Sua voz ainda estava rouca, mas não estava fraca como antes.

- Me chamo Dante. – Já na porta, adicionou - Está tudo bem, essa sopa precisa acabar hoje de qualquer forma. – E saiu, dessa vez deixando a porta aberta.

 


 

Quando Diógenes juntou forças o suficiente para se por sentado, Dante deu início a um interrogatório, sua figura esguia sentada na ponta oposta da cama.

- Agora me diga, o que lhe trouxe a cidade?

- Eu acabei aqui por acaso. O que aconteceu com as minhas roupas?

- Eu faço as perguntas, você responde. Você disse que veio andando, mas não parece ser das redondezas. De onde você veio?

- Eu, ahn... Eu vim do Rio-

- Saiu de lá por quê?

- Meu deus, cara! Da um tempo pra eu respirar pelo menos!

- Tudo bem, desculpe. Qual a sua graça, andarilho misterioso? – Sua voz tinha um tom condescendente muito irritante.

- A minha o que?

- Seu nome.

- É Diógenes... – Ele respondeu, um pouco vermelho em um misto de raiva e vergonha.

- Um nome muito apropriado dadas as atuais circunstâncias. Agora me diga, Diógenes, por que você veio andando da capital até esse pedaço de fim do mundo?

- Eu... Por motivos pessoais, eu tô sem um lugar pra ficar, saca? Então eu só comecei a andar e... Cheguei aqui.

- Mora na rua, então. Tem para onde ir?

- Eu... – Engoliu a resposta desaforada que estava na ponta da língua. – Não, eu não tenho pra onde ir. Feliz?

- Não muito. Te dou uma semana pra decidir o que fazer com sua vida. Suas roupas ainda estão sujas, lavarei quando parar de chover. O banheiro fica nos fundos, não vou te trocar de novo. – Ele disse, já se levantando.

- Como assim “de novo”?

- Eu disse que você dormiu por 14 horas, como você acha que entrou nas roupas secas? – E abandonou Diógenes no quarto.

 


 

Um pouco mais tarde, Diógenes se arrastou pelas paredes até o banheiro nos fundos da casa. Era um cômodo apertado que parecia ter sido adicionado depois que a casa já estava construída. As paredes eram de pau-a-pique, era iluminado por uma lâmpada fria e tinha privada, pia, espelho e um cano que saia da parede que ele imaginou ser o que seu autoproclamado anfitrião usava como chuveiro. Decidiu que estava com raiva demais para pensar nele como seu “salvador”.

Ele se olhou no espelho e notou um pouco surpreso que Dante fizera um ótimo trabalho o limpando, mas ficou com sentimentos mistos ao imaginar as mãos finas do homem correndo por seu corpo nu e desacordado. Seus cachos loiros estavam, pela primeira vez em muito tempo, asseados. A pele bronzeada estava sem lama e algumas feridas mais feias espalhadas pelo seu corpo tinham curativos bem feitos. Sua pinta de surfista que sempre fizera sucesso entre as garotas e até mesmo com alguns caras estava de volta. Era bom ver essa versão de si novamente.

Diógenes se encarou confuso no espelho. Dante havia cuidado dele, cuidado muito bem na verdade. De onde vinha, então, toda essa rispidez? Talvez ele tivesse feito isso apenas por uma obrigação religiosa, imaginou que as pessoas do interior deviam acreditar muito mais no inferno.

Cuidou de suas necessidades e lavou o rosto com a água gelada e um pouco rançosa da bica; mais uma vez, não estava em posição de reclamar, fazia muito tempo desde a última vez que teve acesso a água corrente. Ele saiu do banheiro se sentindo um pouco menos miserável.

A casa era pequena. Tinha 4 cômodos: o banheiro, a cozinha, o quarto e o que deveria ser a sala, mas tinha apenas uma mesa, uma cadeira e uma pilha de baús empoeirados encostados em uma parede. Da suposta sala vinha um “tec tec tec” incessante.

Dante digitava rapidamente. Uma pilha de papeis e arquivos de um lado e uma pilha com pastas do outro. Diógenes observou que, na verdade, ele não estava digitando e sim datilografava. Por um segundo questionou se não havia viajado no tempo por acidente.

- Está se recuperando bem. Precisa de algo? – Dante nem ao menos se virou para reconhecer a presença de seu hóspede no cômodo.

- O que é isso?

- Uma máquina de escrever. Nunca tinha visto uma?

- Por que você não usa um computador ou algo do tipo?

- Não gosto de tecnologia.

Diógenes franziu o cenho. Dante parecia jovem demais para não saber usar um computador.

- Quantos anos cê tem?

- 28.

- Você não tem quase 30 anos, cara.

- Por que eu não teria? – Dante parou de digitar, se virou para o rapaz de pé no corredor e disse um pouco exaltado. - Ah, por favor, sente-se logo antes que você desmaie de novo e eu tenha que arrastá-lo pela casa outra vez. – Ele se levantou e trouxe um dos baús para perto da mesa, sinalizando para que Diógenes se sentasse. Ele assim o fez.

- Você parece... Mais novo. Tipo, eu tenho 23, achei que tivéssemos mais ou menos a mesma idade.

- As pessoas não envelhecem mais como antigamente. Os 40 são os novos 30 e assim por diante. E mesmo assim, eu não sou tão mais velho que você. – Não parecia tão ofendido quanto realmente estava.

- Se você diz... O que você tá escrevendo aí?

- Obituários.

- Você... É bem estranho... Com todo respeito.

Dante deu uma gargalhada e voltou a escrever.

- Eu trabalho na funerária local e escrevo os obituários pro jornal com as informações que as famílias pedem. Só isso.

- Eles não ficam meio putos em receber tudo no papel? Quero dizer, o jornal.

- Um pouco. Tentaram botar outra pessoa disposta a escrever por email uma vez, mas muitos dos habitantes se recusaram a mandar as informações se não fosse para mim. Coisa de cidade pequena.

- Entendi...

Houve um breve momento de silêncio constrangedor onde podia-se ouvir apenas o “tec tec tec” da máquina de escrever e uma goteira pingando em um pires em algum canto.

- Por que você me resgatou?

- Como assim?

- É exatamente isso que eu disse.

- Ah, claro, porque seria uma ótima ideia deixar um homem desacordado à beira da morte na minha porta. Seu corpo ia me atrapalhar quando eu fosse sair pra trabalhar e, ao invés de te arrastar até o quarto, eu precisaria te arrastar até o hospital, que fica bem mais longe. – Sua voz tinha outra vez aquele tom de condescendência irritante - Ou talvez eu só não quisesse te deixar pra morrer. Quem sabe. Eu sou bem estranho, palavras suas.

- Eu não queria te ofender, foi mal...

- Não ofendeu, só estou esclarecendo a lógica da situação. Não havia razão nenhuma em te deixar lá fora. E se eu estava trazendo um desconhecido pra dentro da minha casa, era melhor fazer logo o serviço completo.

- Entendi... Olha, se tiver sendo problema, eu posso me mandar já. Só me diz como chegar na cidade que eu dou meus pulos.

- Não. Você ainda está com as minhas roupas.

- Ah, bem... Então quando eu tiver as minhas roupas de volta eu posso-

- Se você conseguir ficar de pé sem se arrastar pelas paredes? Sim, você pode “se mandar”. Entretanto, você parece inofensivo e, como pode ver, eu estou fazendo um péssimo trabalho mantendo essa casa de pé. Depois de ponderar um pouco, eu conclui que se você realmente não tiver para onde ir, você pode ficar aqui por um tempo e me ajudar com a casa assim que estiver bom. Se você quiser.

- Isso não é um daqueles golpes que você vai me prender aqui por dívida, é?

Dante parou de escrever e encarou Diógenes por alguns segundos.

- Eu estou tentando de verdade não insultar seu intelecto nesse momento. Não, isso não é um golpe. Quando você duvida que algo seja um golpe, você não pergunta se é um golpe.

- É, eu acho que um golpista seria um pouco mais simpático. – Respondeu, desgostoso.

- Essa é a primeira vez desde que acordou em que você parece ter pensado. Obrigado por esclarecer. Tem pão e manteiga na cozinha, se você quiser. – E tornou a escrever.

Diógenes percebeu então que este era o ponto mais baixo de toda a sua vida, pois tinha acabado de se vender por um pão com manteiga.

Na cozinha havia tudo o que era de se esperar: fogão, geladeira, pia, uma curta bancada com compartimentos embaixo, um filtro de barro, um armário e uma mesinha redonda com uma única cadeira. Em cima da mesa jaziam o pão e a manteiga. Dante muito provavelmente havia acabado de comer e Diógenes se pegou pensando se não estaria comendo os restos que o mais velho deixou. Percebeu que não se importava.

Sentou-se com cuidado e se serviu. Não fazia tanto tempo assim desde que fora jogado na rua, ele gostava de pensar, estava sendo apenas dramático. Três meses deve ser pouca coisa, haviam pessoas que passavam uma vida inteira. Ele se perguntou se estava mesmo seguro, então percebeu que Dante devia estar se perguntando o mesmo. Era um risco que ambos precisariam correr, já que Diógenes precisava de um teto e, dado o estado decadente da casa, Dante precisava de ajuda.

 


 

Eles discutiram mais uma vez, agora sobre onde Diógenes dormiria essa noite. Dante suspirou fundo e anunciou em tom de derrota:

- Quer saber? Se está bom para discutir assim, deve estar bom para dormir no chão.

Assim, o chão da sala teve um canto forrado e enquanto o mais novo se preparava para dormir, o outro o observava do corredor.

- Você realmente não sabe ser ajudado, não é? Levanta.

- E onde você vai dormir?

- Eu estou indo trabalhar daqui a pouco.

- Mas já devem ser umas nove horas da noite!

- Os enterros acontecem pela manhã, os corpos são arrumados a noite. Devo chegar por volta das seis e então eu durmo quando você acordar.

- Por que você não disse isso antes?

- Queria ver até onde você iria com isso. Precisa de ajuda levantando? Eu sei que tem um corte feio na perna.

Mais uma vez Diógenes foi pego de surpresa pela mudança abrupta no tom de Dante. Ele sabia que o homem não hesitaria em ajudá-lo, pelo menos não havia hesitado até agora, mas tinha dificuldade em diferir seu tom de sarcasmo.

Como esperado, mesmo sem receber uma resposta Dante se aproximou e passou um dos braços do hóspede pelo pescoço, oferecendo-lhe apoio para se colocar de pé. Diógenes odiava perceber o quão debilitado estava, até porque foram “apenas” três meses. Tirou esse momento para apreciar a ironia de que apesar da aparência cadavérica que combinava com o ofício, Dante tinha mãos quentes. É claro que não disse isso em voz alta, mas guardou como uma observação interessante após um dia tão tedioso.

Quando chegaram ao quarto, Diógenes se sentou na cama e recusou qualquer outra ajuda. Não estava debilitado a ponto de não conseguir se deitar sozinho, pelo menos isso. O quarto, como o resto da casa, não era grande coisa. Tinha uma cama de casal que ficava no canto da parede da janela, uma mesinha de cabeceira e um armário pouco maior que o da cozinha, o que não configurava algo muito grande. As janelas deixavam passar um pouco de água o que causou uma pequena infiltração na parede, mas tirando isso era o cômodo mais conservado.

Dante tirou um casaco longo do armário e Diógenes fez mais uma nota mental, agora sobre as escolhas de moda inusitadas dele. Fora Dante quem apontara que Diógenes não parecia ser das redondezas, mas ele mesmo não encaixava muito bem com a paisagem de uma cidade pequena. De repente notou que não fazia a menor ideia de onde estava.

- Dante...

- Sim? – Ele estava vestindo um sobretudo azul marinho, quase preto.

- Qual o nome dessa cidade?

- Santa Bertilla. Você provavelmente nunca ouviu falar. Tecnicamente não é uma cidade, nem aparece no mapa, mas eu não diria isso pra ninguém daqui.

- Você é daqui mesmo?

- Temo que isso não seja da sua conta. – Ele disse em um tom surpreendentemente doce. - Boa noite, Diógenes.

E saiu sem dar mais explicações. 

 


 

Dante trabalhava na funerária local como tanatopraxista, isso significa que ele preparava os corpos para serem enterrados: maquiagem, roupa, cuidar de feridas, etc. Ele podia muito bem trabalhar durante o dia, mas existia uma paz intrínseca à madrugada que o fazia preferir esse horário e, de qualquer forma, não era bom deixar o cemitério vazio durante a noite; os mortos precisavam de alguém que olhasse por eles, então também assumia o papel de vigia noturno que lhe rendia uma grana extra.

Ele só trabalhava mais cedo – ou mais tarde, dependendo do ponto de vista - quando as famílias pediam para acompanhar o processo. Geralmente eram viúvos de esposas e pais de filhas. Dante sabia o que eles temiam e por isso nunca recusava os pedidos.

Quando chegou em casa por volta das 6:30 parou com a chave na fechadura. Olhou ao redor, procurando por sinais de arrombamento ou invasão apenas para concluir que estava sendo novamente consumido por uma paranoia estúpida. Estava seguro. Pela primeira vez em algum tempo estava seguro. Lembrou então do homem dormindo em sua cama e voltou a questionar a própria segurança.

Respirou fundo e entrou na casa, trancando a porta atrás de si e deixando as chaves em cima da mesa. Tirou os sapatos sujos de lama e foi descalço pelo chão de cimento até o quarto. Diógenes ainda dormia, mas estava encharcado de suor. Dante pendurou o casaco e se aproximou de seu hóspede. Sentou na beira da cama com cuidado e pousou a mão em sua testa rezando para que fosse qualquer coisa, menos febre. É claro que era febre.

Retirou as cobertas de cima do doente e quando estava prestes a sair do quarto ouviu um som inconfundível. Virou-se rapidamente e foi ao encontro do mais novo ao perceber que o mesmo estava quase caindo pra fora da cama.

Ficaram ali sentados, Dante fazendo seu melhor para impedir que Diógenes caísse para qualquer lado e principalmente em cima do próprio vômito. Para isso, usou uma das mãos como apoio para o peito do rapaz.

- Pronto, põe pra fora... O que você andou comendo antes de chegar aqui, hein? – Ele falava baixinho enquanto afagava a nuca e cabelos suados do doente, o mesmo tom de voz que se usa quando se encontra um cachorro ferido na rua.

Diógenes tossia e quando parou de vomitar Dante segurou seu rosto pelo queixo e o examinou bem. Largou-o, pegou uma lanterna na gaveta da mesinha de cabeceira e tornou a segurar seu rosto, acendendo a lanterna bem na sua cara.

- Você usa alguma droga?

- Me... Desculpa...

- Você pode por favor me responder?

- Eu usei uma balinha numa festa mês passado... Tô limpo já...

Apagou a lanterna.

- Dormindo na rua a quanto tempo?

- Ah, cara... Uns três meses, talvez?

Dante o soltou.

- Por que diabos você foi a uma festa enquanto já estava morando na rua?

- Ce sabe como é, precisa manter as aparências...

- Não, eu não sei! – Ele suspirou, profundamente decepcionado. - Vamos, levante. Você vai ficar sentado na cozinha tomando um pouco de ar, se não isso nunca vai dar certo.

- Porra, eu tava bem ontem...

- Acontece com os melhores, agora vamos.

 

 

Diógenes estava sentado na cozinha, de cara limpa e bebendo um copo d’água. Depois de algum tempo Dante se juntou a ele, trazendo a cadeira que ficava na sala para se sentar à mesa.

- Você não me dá um minuto de paz.

- Foi mal, cara...

- Foi você quem escolheu o nome?

- Oi?

- Foi você quem escolheu seu nome? Não é todo dia que se conhece um Diógenes.

- Na verdade não, é meu nome de registro mesmo. Caraca, se eu ganhasse uma moeda pra cada vez que me perguntassem isso eu definitivamente não ia tá morando na rua. – Deu uma risada fraca. – E você? Foi quem escolheu a sua “graça”?

Dante sorriu.

- Sim, eu que escolhi. E sim, foi um pouco por causa do personagem de A Divina Comédia.

- Caramba, você ia se dar benzão com os meus pais. Eles adoravam essas coisas gregas antigas.

- A Divina Comédia é da Itália. – Ele retrucou, bem-humorado.

- Ah, vai, dá no mesmo. Todos eles escreviam com a mesma pompa.

- Eu não esperava que você fosse ter uma opinião tão formada sobre a antiguidade clássica, Diógenes. – Dante precisou conter uma risada ao perceber o que tinha acabado de falar. É claro que Diógenes teria uma opinião forte sobre o assunto e é claro que ele não gostava nem um pouco dos clássicos gregos. – Mas você não está errado. Os renascentistas se inspiraram muito nos gregos antigos.

- É, eu sei. Tive que ler uma porrada dessas coisas, nunca entendi porque chamar de comédia se não tinha graça nenhuma. E antes que você diga mais alguma coisa, eu sei que se chama comédia porque tem um final feliz. Não que eu quisesse saber disso, mas sei.

Dante estava levemente desconcertado. Havia julgado muito mal seu hóspede e não podia deixar de ficar um pouco envergonhado ao lembrar de todas as vezes em que ele mesmo fora subestimado. Mesmo que Diógenes não revelasse esse lado, não teria sido mais correto julgá-lo como fez.

- Sabe, caro hóspede, algo me diz que vamos nos dar muito bem.

- Se eu não morrer nos próximos dias? É, talvez.