Actions

Work Header

você roubou meu coração (eu estava dormindo)

Summary:

É inverno em Hawkins, e Mike e Will não estão mais se falando. Morando na casa de Mike, Will tenta ser invisível, passando a maior parte de seu tempo no porão.
Mas então a eletricidade cai — e se tem algo que ele teme mais do que enfrentar Mike, é o frio.
Sete noites em que Mike e Will têm que dormir na mesma cama, mesmo eles nem sendo mais amigos.

Notes:

Tradução em português brasileiro da fanfic maioral da autora lameparties "you took my heart (i was sleeping) (link: https://archiveofourown.org/works/72695121/chapters/189346596). Espero que tenha ficado bom! PS: eu sou paulista, então os personagens falam meio que nem paulistanos. Espero que não incomode quem não é de SP #sampafóbicos

Chapter 1: Capítulo 1

Chapter Text

A colher escapa dos dedos de Will e se bate contra a tigela de cereal. Isso faz um barulho alto nessa manhã de novembro na mesa de jantar dos Wheelers, e Will se assusta como se ele tivesse acabado de acordar.

“Desculpe”, ele sussurra, usando a sua manga para limpar o leite derramado da mesa, que está sempre impecável.

Da sala de estar vem o farfalhar do jornal do sr. Wheeler — é rápido e cortante, como um aviso. Ele vem procurando motivos para expulsar tanto Will quanto Jonathan da casa, e atrapalhar seu ritual matinal sagrado de sentar no sofá, tomar café e ler as notícias, provavelmente não ajudará muito a situação de Will.

Holly solta a sua própria colher em seu cereal e ri dos espirros. Ela e a sra. Wheeler estão acordadas desde cedo, como de costume, e este é o horário de que Will mais gosta — quando só tem eles três na cozinha.

“Você parece cansado, querido,” diz a sra. Wheeler, a sua voz flutuando acima do barulho que Holly produz com a sua colher. Ela coloca uma lancheira na mochila de Holly. “Está dormindo mal?”

Will pesca a sua colher da tigela. “Não, tá tudo bem.”

Ela sorri e seu batom está perfeito, mesmo nessa hora da manhã. “Eu sei que o porão fica frio no inverno, então não tenha vergonha de usar o aquecedor, ok?”

Na verdade, o aquecedor já está ligado no máximo todas as noites e Will se sente horrível não apenas por ficar na casa dos Wheeler de graça, mas também por sabotar a conta de luz deles.

A culpa, entretanto, não é tão forte quanto o seu medo do frio.

Só uma coisa é mais forte que ele, e é —

“Ou você pode pedir para o Mike compartilhar o quarto dele durante o inverno. É bem mais aquecido no segundo andar.”

Há uma tosse e mais um farfalhar de jornal vindos da sala de estar, seguidos por um resmungo baixo que nem Will nem a sra. Wheeler ouvem.

“O que você falou, querido?” ela chama, apesar do rosto dela dizer que, o que quer que seu marido tenha dito é besteira, de qualquer forma. Ela tem um jeito de fazê-lo parecer menos assustador do que ele gostaria de aparentar ser.

“Meninos grandes não deveriam dormir no mesmo quarto,” o sr. Wheeler repete, mais alto desta vez. E ainda que a sra. Wheeler tenha revirado os olhos, aquilo dá um arrepio na coluna de Will.

“Preciso levar a Holly para a escola”, ela diz e aperta seu ombro. “Te vejo no jantar.”

Quando ela sai com Holly, o silêncio se desdobra novamente, quebrado apenas pela eventual virada de página de jornal vinda da sala. Will senta com sua colher, curvado acima de sua tigela, encarando os flocos moles. Alguns minutos de paz.

É aí que as escadas estalam.

Ele não levanta o olhar na hora, apenas mexe no leite do seu cereal, fingindo que não conhece o padrão dos passos de Mike Wheeler de cor.

“Mãe, você viu —”

Mike para à porta. Seu cabelo está bagunçado, como se ele tivesse acabado de acordar. Está mais curto do que no ano passado, mas seus cachos ainda caem além de suas orelhas. Sua camiseta está levantada de um lado, como se ele tivesse acabado de colocá-la e ainda não a tivesse esticado. Quando ele vê Will à mesa, sua postura se enrijece.

“Ah. Oi.”

“Bom dia”, Will murmura. Pela milionésima vez, ele se pergunta se deveria começar a comer no porão — ou evitar completamente todos os cômodos. Qualquer coisa para poupar tanto Mike quanto a si mesmo do lembrete desconfortável de que eles não são mais próximos. Sua colher arranha o fundo da tigela.

Mike atravessa a sala, com os olhos em qualquer lugar exceto nele. Ele pega a sua mochila de um canto, depois se dirige ao balcão para pegar seu próprio cereal. Por um segundo, ele hesita, espiando uma das cadeiras vazias ao lado de Will.

Seus olhos se encontram.

O ar parece pesado com o quão alto o silêncio é.

Quer sentar? As palavras aparecem na garganta de Will, mas ele as engole. Não faz sentido perguntar. Ao invés disso, ele apenas encara a mesa e torce que seu rosto não entregue nada. Ele cansou de esperar algo de Mike — ele nunca mais vai esperar algo dele.

Mike se demora, claramente desconfortável. O que não é surpreendente. Porque, apesar do que ele disse ano passado, sobre trabalhar como um time, sobre serem melhores amigos novamente, eles mal se falam. Na verdade, eles já tinham se afastado antes mesmo de Will se mudar. Foi estúpido pensar que eles poderiam consertar isso.

“Eu, é…”, Mike diz, de pé e constrangido com sua tigela nas mãos. “Eu vou comer no meu quarto. Eu tô meio obcecado com uma nova série de quadrinhos, então…”

Will quer perguntar qual série — e se tem mesmo alguma série — mas ele se impede. Eles não perguntam mais coisas pessoais um para o outro.

“Legal”, ele prefere dizer, querendo soar casual.

Mike protela por mais meio segundo, como se pudesse mudar de ideia. Mas ele não muda de ideia. Will escuta o ruído de seus passos sumir escada acima, até a casa engolir o som.

O aquecedor perto da janela crepita silenciosamente. Will se inclina para trás em sua cadeira, com a madeira estalando abaixo de si. Ele olha para seu colo e se lembra de sentar na mesma cadeira de jantar anos atrás, com suas pernas com metade do tamanho atual, na época que seus pés não alcançavam o chão e ele e Mike arrastavam seus assentos pelo chão, rindo sempre que a sra. Wheeler os dava bronca.

Ele se lembra de quando dormir na casa de Mike era a melhor sensação do mundo: uma noite cheia de jogos e risadas, segredos sussurrados, e a ocasional fagulha de esperança de que cada dia da amizade deles os uniria ainda mais.

Eles costumavam fantasiar sobre serem adotados pela mãe um do outro, para eles poderem morar na mesma casa.

Agora, morar com o Mike é só triste.

Uma coisa é derramar todos os seus sentimentos em uma pintura idiota, tentar se confessar ao seu melhor amigo, falhar miseravelmente e ajudá-lo a voltar com a sua namorada. Outra coisa totalmente diferente é ser forçado a morar sob o mesmo teto que ele e perceber que vocês não tem mais nada a dizer um ao outro.

Mais do que tudo, é solitário.

Com a Max ainda em um coma, Lucas passando todas as tardes no hospital, Dustin saindo quase exclusivamente com o Steve e a Robin, a El treinando com a Joyce e o Hopper, e o Jonathan ocupado tentando consertar as coisas com a Nancy, não tem mais muita gente para conversar.

Eles ainda almoçam juntos na escola, mas não é como costumava ser.

Parecem ter muitas lacunas na conversa agora — do jeito que eles evitam conversar sobre a Max ou sobre o Eddie. E tem um silêncio entre cada frase que seria preenchido entre Mike e Will, se eles estivessem se falando.

“Vocês dois tão acabando com o grupo, sabia?” Dustin deixou escapar uma vez, quando Mike se recusou a sentar-se ao lado de Will na noite de filmes. Foi uma das únicas vezes que Will viu Dustin bravo. “Já tem merda o suficiente acontecendo, e vocês tão deixando tudo pior ainda. Por que vocês brigaram?”

Mas a verdade é que eles nunca brigaram. Eles só pararam de se falar. Will não conseguiu olhar para Mike naquela noite, que tinha seu olhar fixado na TV, as suas sobrancelhas franzidas enquanto ele se apertava entre o Lucas e a El, mesmo que o espaço no sofá ao lado de Will estivesse vazio. “Só deixa isso pra lá”, ele murmurou, e Will viu a mágoa que passou pelo rosto de Dustin antes dele se virar.

Lucas estava — e ainda está — igualmente frustrado. Às vezes, ele implora para que Will perdoe Mike por seja lá o que ele tenha feito.

Mas não tem nada para perdoar. Nada para consertar. Nada para dizer.

Só não tem nada.

Eles já foram próximos, e agora não são mais. Simples assim.

 

O porão cheira levemente a poeira e metal quando Will desce naquela noite. Com o aquecedor numa potência tão forte, os canos chacoalham e zumbem. Ele gosta de dormir assim, com o cobertor acima dos seus ombros e as suas costas pressionadas contra o aquecedor.

Ao longo desse ano, ele tornou o espaço seu: a mesa está encostada no radiador para ele poder ficar aquecido enquanto pinta e desenha, e o colchão foi empurrado para a parede oposta. O sofá de Jonathan normalmente não é usado — uma pilha de cobertores e uma caneca meio vazia do mês passado, porque ele geralmente escapa para dormir no quarto da Nancy.

Os novembros em Hawkins sempre são duros, mas agora com os portões ainda abertos e as rachaduras nas ruas, algo no ar parece errado. Até o verão estava fresco, quase como se o frio do Mundo Invertido estivesse se esgueirando para o mundo deles.

O frio deve ser uma das únicas coisas de que Will se lembra sobre o Mundo Invertido.

Às vezes, ele sonha com isso — sem imagens definidas, só frio e escuridão. É um tipo diferente de frio, como se fosse vivo. Como se ele mexesse e escutasse, o frio passa por baixo das portas e se pressiona contra a sua pele até ele acordar com uma arfada, surpreso de ainda estar respirando — seus pesadelos sendo um lembrete constante de que essa escuridão ainda está dentro dele, em algum lugar.

Sempre que isso piora, ele se pressiona contra o aquecedor até o metal deixar marcas vermelhas em suas costas. A ardência parece uma prova — de que ele ainda está aqui, de que ainda está sob controle do seu corpo, e de que não tem nenhuma força sombria dentro de si, tentando diminuir a sua temperatura corporal.

Nós tivemos que queimar essa coisa para fora de você, sua mãe o contou no outono de 85 depois do Devorador de Mentes. O calor enfraquece a conexão.

E ainda que Will odeie pensar nisso, ele sabe que Vecna ainda está por aí, recuperando sua força, esperando. Eventualmente, ele voltará. Até lá, não tem muito que ele possa fazer além de se manter cauteloso e aquecido.

Ele se encolhe contra o aquecedor, fecha seus olhos e diz a si mesmo que pare de ser um covarde. Vecna pode voltar em algum momento, mas hoje não. É normal estar frio assim — é inverno, só isso. Todo mundo está congelando.

Acima dele, a casa está silenciosa. Em algum lugar distante, o vento passa por uma árvore.

Aqui embaixo, o zumbido do aquecedor é constante.

 

Durante as tardes e fins de semana, Will gosta de sair da casa dos Wheelers o máximo possível, para diminuir sua chance de esbarrar com Mike.

Ele pedala para todo lugar. Para a cabana do Hopper, principalmente, ou para o ferro-velho próximo que El dominou como seu espaço de treinamento. Ele estava lá na primeira vez que ela flutuou. É empolgante vê-la desafiando a gravidade dessa forma, fazendo coisas que ela não deveria ser capaz de fazer. Isso faz ele sentir que eles têm pelo menos algum controle sobre as coisas que estão acontecendo.

Agora, ela está pairando dois metros no ar, com os olhos fechados e a brisa esvoaçando seu cabelo ondulado. Quando Will estica o braço, seus dedos tocam levemente o tornozelo dela, com cuidado para não quebrar o seu foco. Mas ela ficou tão boa nisso que apenas abre os olhos e sorri para ele sem nem se desequilibrar.

“Você é incrível”, ele diz.

“Pois é”, ela diz sorrindo, o sol de inverno batendo em seus cílios.

Quando o céu vai ficando roxo, Will volta a sua bicicleta, pedalando de volta à casa dos Wheelers, acelerando quando chega na floresta. Ele odeia como as sombras se movem entre as árvores depois do pôr do sol. É quase como se a floresta se lembrasse dele.

Mesmo antes dele chegar na frente da garagem, ele sabe que algo está errado. A casa está escura. Com exceção de uma centelha, sutil demais para que seja perceptível de onde ela vem. A luz automática da garagem não liga.

Will derruba sua bicicleta no gramado, sua respiração acelerando enquanto está frente à porta. Seu peito está apertado. Ele hesita por um segundo, e então abre a porta.

“Olá?”

Uma chama laranja brilha da sala de estar. Há vozes — sussurradas e baixas. Will expira, aliviado, tira seus sapatos e os deixa perto da porta antes de entrar.

Mas algo não está certo. A família Wheeler inteira e Jonathan estão reunidos em volta da mesa de café. Está estranhamente escuro, a única luz vindo de várias velas, projetando sombras nas paredes.

Will aperta o interruptor. Nada acontece.

“Will!”, Jonathan se levanta, agarrando o seu braço. “Oi. Ainda bem que você chegou. Acabou a luz, a gente tá tentando falar—”

“A-ham.” Ted Wheeler está segurando um walkie-talkie como se fosse um objeto alienígena. É estranho vê-lo com algo que Will associa tão intensamente com seus amigos. “Você está me dizendo que não há nada a ser feito?”

Uma explosão de estático, depois uma voz mecânica e cansada, que soa como se ele já tivesse explicado isso um milhão de vezes antes. “Sinto muito, senhor. Não é apenas na sua casa, a rede inteira caiu. Estamos fazendo o nosso melhor. Até lá, por favor, utilizem velas e cobertores para permanecerem aquecidos.”

O sr. Wheeler balbucia algo inaudível antes de empurrar a antena para baixo de forma desajeitada e devolver o walkie para Mike, que está sentado em silêncio ao seu lado. Na luz turva da vela, Will não consegue evitar de notar algumas semelhanças entre seus traços, a mesma ruga franzida entre suas sobrancelhas. Ele se pergunta se Mike também será como seu pai algum dia.

“Sem luz hoje à noite?”, Holly pergunta, animada.

“Não, docinho. Mas tudo bem — vamos deixar tudo aconchegante com as velas.” a sra. Wheeler dá uma lanterna para a filha. “Por que você não sobe, e eu te coloco para dormir daqui a pouco? Cuidado nas escadas!”

Holly sai correndo, com a luz da lanterna balançando. Ted Wheeler está sentado no sofá e encarando a TV apagada, como se a TV fosse ligar de novo se ele olhasse o bastante. Nancy está procurando por mais velas nas gavetas.

“Os aquecedores”, Will se lembra de repente.

“Não estão funcionando,” Jonathan confirma. “Mas tudo bem. Nós temos cobertores.”

“Vocês meninos.” a sra. Wheeler olha entre Jonathan e Will. “Eu sei que fica frio no porão mesmo quando o aquecedor está funcionando. Jonathan, você pode dormir no sofá, e Will, talvez você possa ficar no quarto do—”

“Não,” Will diz rapidamente, porque ele prefere que seja ele a falar, e não o sr. Wheeler, ou ainda pior — O Mike. Seus olhos encontram os de Mike brevemente, sua expressão impossível de ler, sobrancelhas ainda franzidas. Will engole em seco. “Ahn, não, obrigado. Não tem problema.”

“Mas se ficar muito frio…”

“A gente avisa.”

 

A noite se desdobra em lampejos e sombras. Velas, restos de comidas frios, o tilintar suave de louças sob água congelante. Nancy e Mike acendem a lareira. Demora um pouco para a temperatura no ambiente subir.

Ted Wheeler liga o rádio a pilha, trocando as estações em esperança de alguma atualização.

“Nós entramos em contato com a Rouane County Water and Electric,” a voz de uma mulher diz acima do barulho do estático. “Um representante disse que a razão para o apagão ainda é desconhecida.”

O sr. Wheeler grunhe e muda de estação para escutar música, mas toda vez que uma música boa começa a tocar, ele muda a frequência. Will e Jonathan trocam um olhar de dor e um rolar de olhos.

“Ei”, Jonathan sussurra, se ajoelhando ao lado de Will no carpete, enquanto o sr. Wheeler segura o rádio perto da sua orelha para tentar ouvir as palavras numa estação cheia de estático. “Eu tava pensando. Quer que eu durma com você lá embaixo hoje?”

“Não, tá de boa.”

“Tem certeza? Você vai pedir ajuda se precisar, né? Por favor, diz que sim.” ele segura o ombro de Will. “Eu sei que vocês não estão se falando, mas tenho certeza de que o Mike não teria problema com você dormir no quarto dele, se você pedir.”

Will hesita, antes de negar com a cabeça.

“Will,” a voz de Jonathan fica mais suave, sobrancelhas erguidas. “Eu não quero que você morra por congelamento só porque vocês dois são teimosos demais para se entender.”

É difícil conversar com Jonathan sobre isso, porque ele estava com eles em Lenora. Ele encontrou seu olhar no espelho retrovisor daquela van, quando o seu rosto ainda estava molhado de lágrimas. Ele provavelmente sabe mais do que admitiria saber: sobre a pintura, sobre a confissão fracassada, e o quanto Will tinha destruído tudo.

“Eu não vou congelar,” Will diz. “Não se preocupa, tá? É só uma noite, vai ficar tudo bem.”

 

Quando ele não consegue mais adiar, Will vai para o corredor para descer até o porão. Só de sair da sala, a frieza da casa já é tangível — como atravessar uma parede invisível.

Mike está sentado no último degrau, falando baixo no walkie. Uma lanterna está presa entre os seus joelhos, lançando uma luz na parede oposta. Will está prestes a passar por ele, quando ele escuta a voz de Lucas vinda do aparelho.

“—A eletricidade de emergência deve durar alguns dias, aí o gerador vai precisar ser recarregado.”

Will congela no lugar. Max. Num coma. No hospital. Eletricidade de emergência.

“Eu tava tão preocupado”, Lucas continua, com sua voz trêmula de um jeito que Will nunca ouviu antes. “Eu vim para cá assim que a luz caiu, eu achei que ela tinha—”

“Eu sei, Lucas”, Mike diz suavemente. “Tá tudo bem. Ela vai ficar bem.”

A voz de Mike é gentil de uma maneira que Will não escuta há meses. Ele olha para cima, vendo Will, e Will percebe que ele está lá parado, escutando uma conversa da qual ele não faz parte. Ele poderia fazer — se Mike e ele estivessem em bons termos. Ele poderia simplesmente sentar ao lado dele na escada e pegar o walkie, oferecendo conforto ao amigo mútuo deles.

Talvez Dustin tenha razão — eles estão mesmo arruinando o grupo.

Will evita o seu olhar, e rapidamente passa por Mike para descer ao porão.

 

Apesar do que ele disse a Jonathan, não está tudo bem.

No andar de baixo, o frio bate como uma memória.

Mesmo nas escadas, Will o sentia se rastejando através de suas camadas de roupa. Ele tenta acender o interruptor por hábito. Até ele acender a primeira vela, as suas mãos já estão tremendo tanto que a chama se apaga. Ele xinga baixo e tenta novamente.

Ele sempre odiou a luz das velas. Muito trêmula, muitas sombras.

É só um apagão. Tá tudo bem. É só o inverno. É normal estar frio assim sem os aquecedores.

Will pega outro suéter da gaveta para pôr por cima do que ele já está usando, antes de se agachar no colchão. Ele checa o aquecedor — desligado, é claro. Depois, ele entra por baixo do cobertor, que está tão gelado que parece molhado, e pega o walkie, como ele quis fazer a noite toda. Ela provavelmente já está dormindo essa hora. “El?”

Estático. Então: “Will?”

O alívio inunda o rapaz. “Graças a Deus. Você tá bem?”

“Não muito,” ela diz e Will consegue escutar ela se virando, o ruído dela se mexendo no travesseiro. “A mãe e eu perdemos nosso programa preferido porque a TV não tá funcionando.”

Will ri e jura que consegue ver a névoa da sua respiração no ar gelado. “Merda.”

“E você?”

“Tô bem.”

“Você tá mentindo?”

Will tenta impedir seus dentes de rangerem. Ela é muito boa em ler suas emoções. “Talvez. Eu não sei, eu só tô… tenso. Você acha que — será que ele está causando isso?”

Há silêncio. El nunca responde uma pergunta sem pensar, ela sempre reflete antes. “Eu não sei,” ela diz finalmente. “Você pode senti-lo?”

“Não, acho que não. É difícil saber. É que — tá tão frio que eu me lembrei de…”

“Eu sei,” ela sussurra.

“Acho que eu só tô preocupado. Tipo, e se ele estiver me procurando? Para me levar de volta?”

“Ah, Will.” A voz dela é suave e afetuosa. “Eu não vou deixar isso acontecer. Nunca. Quer que eu vá até você? Ou você quer dormir aqui? Você pode dormir na minha cama.”

“Não, não.” A ideia da El acordar a Joyce e o Hopper no meio da noite para irem buscá-lo dá calafrios. A mãe dele já se preocupou demais com ele. “Tá tudo bem. Eu só… queria ouvir a sua voz.”

Mesmo no silêncio, Will sabe que ela está sorrindo.

“Que bom que você está compartilhando o porão com o Jonathan,” ela afirma, sua voz agora mais como um murmúrio, daquele jeito otimista demais às vezes numa tentativa de fazer os outros se sentirem melhor. É algo muito maternal — ela provavelmente pegou esse hábito da mãe deles. “Você não está sozinho. Se qualquer coisa acontecer, o Jonathan pode ligar para a gente.”

Will abre a sua boca para dizer algo mas para. Ao invés disso, ele fecha os olhos e se permite se iludir por um segundo. A El não precisa saber a verdade. Na verdade, é melhor assim. “Sim,” ele diz. “É, você tem razão.”

Quando eles dizem boa noite e o canal fica silencioso, Will se encolhe debaixo do cobertor, enfiando suas mãos entre os seus joelhos, tentando fazer com que a suavidade e o calor da voz da El permaneçam no ar. Ele puxa o cobertor até o rosto, para que a sua respiração radie do tecido de volta para a sua pele.

Mas mesmo enrolado no cobertor, ele treme. Suas mãos e seus pés doem de frio. E ele percebe que isso é estúpido. Tão, tão, tão estúpido.

Ele imagina o jornal de amanhã. Ele pode até aparecer na matéria de capa.

Menino que ressuscitou — também conhecido como Zumbizinho — morre congelado porque não conseguiu pedir para o seu antigo melhor amigo para compartilhar o seu quarto.

A chama da vela treme. Will fecha seus olhos com força para não ter que ver as sombras nas paredes e nos móveis.

Foco, ele diz para si mesmo. É só um apagão. Nada fora do comum. Acontece em todas as cidades, em toda parte do mundo. Sim, tá frio, mas não vai te matar. E não, o frio não quer dizer que o Vecna tá se esgueirando fora da casa, é literalmente fim de novembro.

Talvez — se ele esperar o suficiente até que Ted Wheeler vá para a cama — ele possa dormir no sofá. Mas ele normalmente fica na sala até 2 ou 3 da manhã, passando metade da noite dormindo na sua poltrona reclinável. Talvez Will possa dividir a cama com a Nancy e o Jonathan, mas conhecendo a Nancy, ela bateria na porta do Mike e forçaria os garotos a se tocarem e dividirem logo a porcaria do quarto.

Um corpo tão frio quanto o de Will é o receptáculo perfeito.

O pensamento passa pela sua mente, e antes que ele possa ignorá-lo, o pensamento se acomoda. É verdade, não é? O Devorador de Mentes ama o frio, é onde ele prospera. Ele precisa de um hospedeiro resfriado — foi por isso que Billy quase derreteu embaixo do sol, foi por isso que Will se recusou a tomar um banho quente quando ele estava possuído.

Se Will adormecer, ele deixará seu corpo desprotegido: um receptáculo vazio e gelado, convidativo e desamparado. Deve ser tão fácil dominar o seu corpo. Ninguém está aqui para testemunhar. E não tem jeito dele impedir que isso aconteça.

É realmente irracional pensar dessa forma? Quem disse que ele não o acharia de novo? Vecna está vivo e esperando, espreitando — eles sabem que ele está. Talvez ele já esteja na frente da casa, esperando ele cair no sono. Seria fácil. Será que Will notaria? Será que alguém notaria?

Ele não deveria ter recusado a sugestão do sr. Wheeler de dividir o quarto com Mike tão rápido. Mas mesmo que o sr. Wheeler permitisse — será que o Mike permitiria?

Ele poderia dizer não.

Como ele tinha feito com todas as tentativas de Will de passar tempo com ele. Mike está sempre — ocupado. Não está a fim. Evitando. “Foi mal, tô muito cansado,” costumava ser a desculpa dele, quando Will ainda o chamava para fazer alguma coisa. Ele não chama mais há meses. Não tem por quê.

Suas roupas e o seu corpo estão gelados demais para preservar calor embaixo das cobertas. Parece que não tem fim. Incurável.

E parece familiar. Como um frio que ele já conheceu mas tinha se esquecido. Um lugar que é escuro e gelado. O Castelo Byers e um menino pequeno, tremendo no chão, esperando ser encontrado. Um guinchar à distância. E o baque, como pés gigantes, pisando em raízes secas. Não tão longe. Se aproximando. Farejando ele. Eles estão quase aqui. Ele está quase morrendo.

Will acorda com um susto. Há um som, como uma batida.

Sentando, ele olha ao redor do cômodo, desorientado, tentando identificar de onde o som veio. Será que a luz da vela ficou mais forte? Seu corpo está tenso, seus ombros estão erguidos perto das suas orelhas. Ele não sabe que horas são.

Então, outra batida. Como uma batida na porta. Vindo da escada de cima.

Will não quer sair debaixo do cobertor, então ele o leva consigo, segurando-o por cima dos seus ombros como uma capa, enquanto os passos estalam abaixo de seus pés. Ele leva sua mão até a maçaneta e hesita. O Vecna não bateria na porta, ou bateria?

Will abre a porta.

Mike está segurando uma lanterna na sua mão, e ela está iluminando seu rosto de dourado e sombras, fazendo os seus olhos parecerem orbes pretas.

“Desculpa,” ele falou. “Eu te acordei?”

“Não.” Will não sabe quando ficou tão bom em mentir. Antes, era impossível ele mentir para Mike — mas agora as palavras só escapam da sua boca, como se a verdade não significasse mais nada.

“É…” Mike diz, hesitando. “Minha mãe pediu para eu dar uma olhada em você.”

É claro que ela pediu. “Eu tô bem.”

“Tá congelando aqui embaixo.”

Will se endireita, forçando o tremor a sair da sua voz e torcendo para suas mãos não tremerem enquanto ele segura o cobertor.

“Eu tô ok, Mike. Eu me viro. Pode ir.”

Os olhos de Mike pestanejam sobre o rosto de Will, como se ele o estivesse estudando. E é realmente injusto. Porque esse ano todo, Will conseguiu se safar com isso. Com todas as mentiras e desculpas, dizendo que estava bem quando não estava, e Mike não se importou. Então por que ele tem que examiná-lo agora, como se ele fosse um quebra-cabeça que ele quer tentar decifrar novamente?

“Eu falei com a El,” Mike diz lentamente. As sombras fazem as suas maçãs do rosto parecerem ainda mais finas, de um jeito que faz o estômago de Will revirar. “Ela disse que você tá… com medo.”

Ai, meu Deus. O peito de Will queima. Lá está, a tão conhecida pena. Mike está sendo pressionado não apenas pela sua mãe mas também pela El a ter que cuidar dele.

“Eu não tô com medo. Eu não sou um bebê, Mike,” Will diz, incapaz de manter a irritação fora da sua voz.

“Não, eu sei. Mas ela disse que o Jonathan tá dormindo aqui embaixo para te fazer companhia.”

“É, ele tá.” Will sabe que está sendo idiota agora — Mike consegue ver o sofá vazio daqui — e talvez seja uma ilusão de ótica, mas por um segundo parece que Mike revira os olhos.

“Você sabe que eu tenho ouvidos, né? Eu escuto ele entrando no quarto da Nancy todas as noites. Eu tô literalmente do lado.”

“Você pode ir embora? Eu tô ok.”

“Eu não acredito em você. Você só não quer causar incômodo ou sei lá o quê.”

“Não, Mike. Eu quero ficar sozinho. Eu não quero falar com você, ok?”

Se eles ainda fossem próximos, Mike estaria magoado agora. Mas ele nem vacila, apenas o encara, imóvel, enrugando a testa.

“Então tá.” Ele olha para a parede atrás da cabeça de Will. “Você deixou claro antes que não queria dormir no meu quarto. Mas eu só quis descer aqui para dizer que você pode, é claro. Não é exatamente quente, mas é melhor que aqui.”

O não já está na língua de Will, quando ele percebe o quanto ele quer dizer sim. Aceitar a oferta e se libertar da tortura de estar sozinho em um quarto que o lembra de tudo que ele queria esquecer.

Mas tem algo no rosto de Mike sob a luz trêmula de velas, o jeito que seus olhos estão quase pretos agora, que faz Will preferir congelar até a morte do que passar uma noite sozinho com ele em seu quarto.

“Valeu,” Will diz com firmeza, “Mas não.”

Mike permanece parado por mais alguns segundos, como se esperasse ele mudar de ideia. “Ok,” ele diz finalmente. Ele abre a boca para dizer mais alguma coisa, mas se impede. Ele engole em seco. “Boa noite, então.”

“Boa noite.”, Will diz.

Quando Mike fecha a porta, a luz desaparece com ele.

Will fica lá, tremendo e contemplando as suas decisões de vida.

Tão. Estúpido.

Ele se vira para olhar a luz fraca da vela que ele acendeu mais cedo. Seu corpo está tão frio que está quase dormente.

Isso é tão—

Ele resmunga e volta para apagar a vela, antes de pegar o seu travesseiro e o seu cobertor. Ele sobe as escadas com a lanterna em mãos.

A casa está escura e vazia. É silencioso, exceto pelo ronco suave de Ted Wheeler vindo da sala.

Will fecha a porta do porão com muito cuidado — ele não quer imaginar a reação do sr. Wheeler vendo ele se esgueirar para o quarto do seu filho no meio da noite. Com passos silenciosos, abafados por duas camadas de meias, Will sobe as escadas.

Ele pausa na frente da porta de Mike, segurando o cobertor com força. A luz da sua lanterna balança com o tanto que sua mão treme. Então, ele bate. Tão suavemente que ele acha que Mike não vai ouvir. E se ele não ouvir, Will não sabe se conseguiria ter a coragem de bater de novo.

A porta se abre. A luz calorosa de velas vem de dentro do quarto. Os olhos de Mike, escuros e confusos.

“Eu mudei de ideia.” Will diz.

Eles se olham, e a expressão de Mike é incompreensível, como tem sido há meses. Lembra quando ele era vulnerável?

Mike abre o caminho.

 

Ele não percebe o quanto essa ideia tinha sido ruim até ele fechar a porta atrás de si e o quarto ficar em silêncio. De repente, é o cenário exato que eles vêm evitando há meses.

Uma versão menor de Will teria sonhado em estar sozinho com o Mike de noite. Ele costumava inventar cenários de mentirinha até amanhecer, para se manter distraído de tudo que acontecia.

Agora ele está aqui, no quarto de Mike, congelando, e Mike está de pé ao lado de sua cama, desajeitadamente brincando com o laço da sua calça de moletom. Eles não têm uma conversa de verdade há tanto tempo que parece impossível encontrar as palavras.

“Ahn…” Will considera descer de novo, mas nem ferrando que ele vai mudar de ideia mais uma vez e deixar isso ainda mais embaraçoso. “Você ainda tem aquele colchão sobrando? O que a gente usava nas festas do pijama?”

Ele fica com vergonha dessas últimas palavras — ele não quis soar tão nostálgico. Mas Mike parece aliviado de ter sido dado uma tarefa. “Tenho, eu vou pegar.”

Enquanto Mike puxa o segundo colchão debaixo da sua cama, Will olha em volta do quarto. Não mudou muita coisa desde a última vez em que ele esteve ali — o que é estranho, porque o Mike mudou tanto. Os pôsteres, a bagunça, tudo parece um eco de uma vida diferente, um Mike diferente, e um Will diferente.

Will reconhece alguns dos seus desenhos antigos na parede, uns que ele fez quando tinha uns doze ou treze anos. A pintura mais recente que ele fez para Mike — a que sempre faz seu rosto queimar quando ele pensa nela — não está em lugar nenhum.

“Acho que vai dar.”

“Valeu.”

Mike senta na sua cama, enquanto Will se agacha no chão e coloca o seu travesseiro no colchão. Está tão quieto no quarto. Sem nenhum ruído de lâmpada ou de rádio. A eletricidade não está nos fios e, nesse momento, Will jura que cria um silêncio anormal.

Ele entra debaixo do cobertor e do canto do seu olho vê Mike fazendo o mesmo. Isso é bom — se eles estiverem dormindo, não precisam conversar.

“Você quer que deixa a vela acesa ou—”

“Acesa, por favor. Will diz um pouco rápido demais.

“Ok.”

Então tudo fica quieto novamente. Will tem o cobertor até o queixo e encolhe suas pernas até o seu peito, se abraçando para se aquecer. Ainda está frio, mas nada como o porão. Ele tenta não se mexer muito, ciente demais de que Mike estava bem do seu lado, escutando cada farfalhar do tecido.

Nenhum deles diz uma palavra.

Um minuto passa. Depois mais outro.

“Bom,” Mike diz eventualmente e vira as costas para Will. “Boa noite.”

Will olha para as costas dele. “Boa noite”, ele diz suavemente.

A casa cai em silêncio. A chama tremelica, e as sombras dançam na parede. E ainda que Will ainda esteja com frio, o som da respiração de Mike o distrai o suficiente para que não pense em seus medos. É um som tão familiar quanto a sua própria respiração.

Will assiste as costas do rapaz enquanto ele respira, cabelos negros se encaracolando abaixo das orelhas. Ele tenta combinar sua respiração com a de Mike.

Ele pode não dormir muito essa noite. Mas ele dormirá. Ele vai sobreviver a noite. Amanhã, a energia terá voltado, e tudo poderá voltar ao normal — ou o que quer que seja o normal deles. Mike pode parar de se sentir obrigado a cuidar dele e Will recuperará sua dignidade.

Eventualmente, o sono virá.