Chapter Text
Experience-Ludovico Einaudi
Bruce tentou um sorriso reconfortante para a mulher a sua frente quando Sally bateu nervosamente as unhas contra a xícara fumegante de chá de amora a sua frente, ficando mais inquieta quanto mais o tempo passava e sua filha não chegava. Era uma visão quase desconcertante presenciar o nervosismo dela, visto que desde que se conheceram um ano antes Sally não havia sido nada além de perfeitamente composta. O mais próximo de nervosa que ele já havia visto havia sido quando ela conheceu os filhos dele e mesmo isso havia sido breve dado ao carinho rápido dos meninos por ela, mesmo Damian tinha se aquecido com ela quase tranquilamente (não que isso o surpreendesse, Sally era uma santa e ele duvidaria da sanidade de qualquer um que não reconhecesse isso). Ele deveria conhecer a filha dela, Penélope, naquele dia, Sally achou que era um bom momento para apresentá-los, agora que eles estavam juntos há alguns meses e marcou o encontro em um café discreto que Bruce pagou generosamente para manter qualquer paparazzi longe. Penélope estava atrasada, no entanto, quase trinta minutos e não havia dado notícias, ele não conseguia decidir se Sally estava mais preocupada com a garota ou envergonhada por ele estar tendo que lidar com a demora (dado o histórico preocupante da garota em se meter em problemas, algo que ele descobriu facilmente na primeira pesquisa que fez sobre Sally, ele apostaria na primeira opção).
Os dois ergueram a cabeça para a porta no momento em que ela finalmente se abriu, um total de quarenta e cinco minutos depois do esperado e uma garota alta adentrou o café. A primeira coisa que Bruce reparou foram os olhos quase sobrenaturais dela, poderiam ser verde-mar se ele realmente se esforçasse, mas o mais próximo que ele poderia realmente chegar se tentasse descrevê-los não seria uma cor, em vez disso ele arriscaria dizer serem como olhar para o movimento hipnotizante do oceano durante uma tempestade. Os cabelos negros estavam em um padrão de tranças realmente complicado e ela usava roupas caras, ele reconheceu, as calças dela eram claramente de alfaiataria, feitas sob medida se ele tivesse que adivinhar e ela estava usando um enfeite de cabelo em forma de sol que ele tinha certeza que deveria custar uma pequena fortuna pelo brilho claro do ouro e o que ele pensava ser diamantes. A família paterna dela era rica, ele se lembrou de Sally explicando algumas semanas antes. As bochechas e o nariz dela estavam levemente rosados pelo vento frio do inverno, embora ela não parecesse muito preocupada, enquanto retirava o elegante sobretudo de veludo azul-marinho e o pendurava no antebraço esquerdo, deixando a mostra os músculos discretos, mas presentes em seus braços e uma tatuagem que ele não conseguia ver direito.
— Desculpe o atraso, mamãe. — Ela começou se sentando a mesa sem olhar para ele, em vez disso direcionando toda a sua atenção para a mãe e ele teve que conter a vontade de inspirar o forte cheiro de praia que ela trouxe. — Hoje é aniversário do H, ele me sequestrou antes do sol nascer para ajudar com… uma coisa.
Ela tinha um sorriso travesso nos lábios e parecia incrivelmente divertida, Sally ergueu uma sobrancelha também sorrindo, mais calma agora que a filha havia chegado.
— Oh? Eu deveria estar preocupada?
Penélope soltou uma risadinha que por algum motivo o lembrou das chuvas de verão.
— Você ? Não.
Sua ênfase, no entanto, deixava claro que embora Sally não precisasse se preocupar, alguém precisaria. Finalmente ela se virou para ele e Bruce quase recuou com o peso repentino do olhar, ele estava certo quando comparou seus olhos ao oceano turbulento, pois o olhar sombrio que ela estava dando a ele naquele momento (ele não duvidava que mesmo alguns heróis fugiriam para as colinas diante dele) o fazia se sentir parado no meio do oceano enquanto algo se agitava nas profundezas abaixo dele, esperando o menor vacilo para devorá-lo vivo (seus instintos gritavam, algo nele sabia, aquela era uma pessoa perigosa e ele não deveria irritá-la). Ele sorriu o mais genuinamente que conseguiu e Sally se apressou para apresentá-los enquanto gesticulava para o garçom.
— Penélope, querida, este é o Bruce.
Ele estendeu a mão ainda sorrindo e ela a pegou com uma firmeza desconcertante, erguendo uma sobrancelha, seu olhar se afiando ainda mais.
— É um prazer conhecê-la senhorita Penélope, sua mãe falou muito de você.
Ela recolheu calmamente a própria mão com um aceno suave de sua cabeça.
— Entendo.
Simples assim, antes de aceitar o cardápio do garçom com um agradecimento firme e fazer seu pedido após folheá-lo rapidamente, de alguma forma cada movimento encharcado de elegância, o tipo de graça educada que faria Alfred brilhar de aprovação.
— Espero… — Ele quase se assustou quando ela começou a falar, ainda suavemente, sob o olhar atento de Sally — Para o seu próprio bem, senhor Wayne, que você saiba que minha mãe merece o melhor e nada, além disso.
Ele abriu a boca, para concordar, talvez tentar apaziguá-la com garantias que não seriam nada além de genuínas, mas ela ergueu a mão de forma autoritária em um movimento bem praticado, o olhar severo de alguém acostumado a estar no comando.
— Eu ainda não terminei. — Ela ignorou o chamado exasperado de Sally — Certa vez, meu pai disse que minha mãe era uma rainha entre as mulheres, ele estava certo e por isso, ela merece o mundo.
Ela parou, se virando para sorrir docemente para a mãe, se o olhar que ela dera a ele era assustador, o que ela ofereceu a mãe era como uma praia calma e convidativa durante um dia quente de verão, então ela voltou a olhar para ele com os lábios franzidos.
— Você não é digno dela. — Um aceno quase desdenhoso em sua direção, mesmo o simples movimento de mão parecendo elegante, antes de dirigir um pequeno sorriso agradecido ao garçom e aceitar a xícara de chá oferecida e a fatia de torta de morango, os colocando delicadamente na mesa a sua frente — Meu pai também não era, ninguém é, isso não vai mudar.
Ela terminou calmamente, erguendo a xícara e sorvendo um pequeno gole do líquido, Sally suspirou, escondendo o rosto entre as mãos, não exatamente surpresa, talvez decepcionada. Bruce engoliu em seco, preocupado, era muito importante para Sally que ele e Penélope se dessem bem e ele realmente amava Sally, mas como eles poderiam ficar juntos se a filha dela não gostasse dele, principalmente com o quanto ela adorava a filha em questão, para sua surpresa, no entanto, Penélope soltou um suspiro contente enquanto abaixava a xícara, parecendo verdadeiramente relaxada, um contraste com o mar agitado de momentos antes.
— Mas… — Ela começou, quase sorrindo para ele — Você parece fazê-la feliz e isso deve ser o suficiente para mim.
Então ela realmente sorriu, era encantador a forma como todo o seu rosto parecia se iluminar com o ato.
— Continue fazendo isso e não devemos ter problemas.
O forte “ ou então” implícito em suas palavras não foi o bastante para impedi-lo de devolver o sorriso, de repente muito mais tranquilo, ele viu Sally sorrindo também.
— Quanto a isso, não há porque você se preocupar, eu amo a sua mãe e vou fazer tudo ao meu alcance para deixá-la o mais feliz possível.
Ela acenou satisfeita com um sorriso largo.
— Bom. — Então ela provou uma colherada da torta e acenou na direção dele com a colher — Então… Como é Gotham? Um amigo me contou que tem um esquisito por aqui que se veste de morcego para combater o crime.
