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Let me follow
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Parte I – Queime meus ossos e mantenha as cinzas em sua boca.
Oh, he did it all
To spare me from
The awful things in life that come
And he cries
And cries
I know...
He knows...
That he's
Killing me
For mercy
Tyrell.
Elliot finalmente o encontra, mas sua presença só se faz real no estalido da arma apontada pra ele, quando a bala o atravessa. Um par de olhos azuis assustados o encaram e parecem refletir o choque que também reverbera nele.
Mr Robot desvia os olhos em frustração, o desgraçado não diz nada pela primeira vez desde que chegaram naquele lugar - ele o deixará sozinho para morrer, Elliot pensa - de súbito, o ar torna-se um pouco mais frio. A última coisa que ele se recorda antes do silêncio e da escuridão alcançá-lo é o baque do próprio corpo contra o chão de granito, o estalido de ossos e a pressão das mãos de Tyrell em seu abdômen.
Quando ele acorda, as imagens e vozes rodopiam ao seu redor - Elliot ouve Angela chamá-lo e dizer que tudo ficará bem, ambos sabem que é mentira. Ele deseja corresponder ao aperto da mão dela sobre a sua, mas seu corpo não responde e volta a flutuar.
Na segunda vez que ele desperta, Angela não está ao seu lado, ela conversa com um homem no canto mal iluminado do que parece ser o galpão que eles estavam quando a arma foi disparada. Uma leve pressão em seu pulso o torna consciente de uma quarta pessoa ali e o toque inesperado o faz estremecer.
-Sinto muito, Elliot, min kärlek. - Tyrell é um misto confuso de palavras desconhecidas e lágrimas presas. Sua voz, sempre tão polida, agora é apenas um sussurro quebrado. -Som jag önskar, som jag vill byta plats med dig.– Elliot se esforça para levantar os olhos e encará-lo, mas sua visão é preenchida por pequenos pontos escuros e ele desiste.
Ele pensa que a fúria que ameaça esmagá-lo tenha respaldo em Tyrell por apertar o gatilho, mas se for sincero, uma parte de Elliot o culpa por ter errado a mira. Suas divagações miseráveis são interrompidas pela fisgada no abdômen. O que ele não daria por um pouco de morfina agora?
A dor aumenta um pouco mais, mas não o suficiente para fazê-lo desmaiar. Ele tenta chamar Angela, mas sua boca está seca. O toque gentil de Tyrell no entanto, torna-se agradável e quase o distrai da dor. Ele se pergunta o que Mr Robot fez naquela noite para ter tanto controle sobre o prodígio da Ecorp.
“A noite em que nos tornamos deuses”, Tyrell tinha soado como um fanático no telefone.
Esse homem - que estrangulou uma mulher pelo simples prazer de poder fazê-lo - a quem se conhece tão pouco, esse estranho permanece ao seu lado e Elliot não entende, ele não entende. Ele pensa que deve dizer que não é quem Tyrell acha que ele é, mas não agora. As mãos de Tyrell continuam a traçar pequenos círculos suaves em sua pele e Elliot está cansado de se sentir sozinho.
I am so tired I fell right through
I looked into a darkness no one knew
I'm falling further into something
That I cannot understand
But you understand
-Eu amei você.– Tyrell assume e é patético. - E agora você quer destruir tudo pelo que lutamos.
A irritação de Tyrell é crescente, ele está tão frustrado que faz Elliot querer rir. A situação toda também está lhe dando nos nervos, explodir é só uma questão de tempo.
Eu amei você. Eu amei você.
Elliot acha que talvez tenha ouvido isso apenas de Darlene. E de Angela, ainda que não seja uma memória sua, ela lhe contou. Eles tinham quatorze e fugiram de casa por alguma horas com uma garrafa de vodka roubada da mãe de Elliot. Angela se declarou e o beijou, tão rápido e inexperiente que seus dentes se chocaram. Ela riu magoada e desviou o olhar quando ele confessou que não se lembrava. Eles não voltam a tocar no assunto.
Elliot a ama, mas não pode mais confiar nela.
Há detalhes sobre a Fase 2 que ele ainda não sabe. Como previsto, seu controle colapsa e Angela intervém. A droga tem um efeito rápido. Ela se desculpa repetidas vezes por sedá-lo, mas Elliot só quer que ela se afaste. Ele olha para os três na sala, as luzes parecem piscar ao seu redor – Mr Robot e Angela não recuam, mas Tyrell, com a boca entreaberta e os olhos arregalados, ele parece tão confuso e traído quanto Elliot.
Fold out your hands
Give me a sign
Hold down your lies
Lay down next to me
Don't listen when I scream
Bury your doubts and fall asleep
Find out:
I was just a bad dream
-Eu preciso sair pra fumar. -Elliot diz depois que Tyrell lhe conta sobre a explosão. Ele se afasta e encolhe os ombros para não tocá-lo enquanto desliza para fora da sala.
Há uma saída de emergência que o leva para um beco estreito, ele tira o cigarro do bolso do jeans e passa a língua sobre o filtro, deixando a nicotina percorrer e esvaziá-lo. A porta se abre e a raiva o força a ranger os dentes para não gritar, a ideia de ser sedado de novo como um animal o mantém no lugar. Tyrell ignora o desconforto que se instala e aproxima-se até que seus ombros se toquem – próximo demais, Elliot pensa.
Eles não dizem nada por um tempo, mas os olhos estúpidos de Tyrell estão sobre ele, analisando-o. Elliot não o encara de volta - e ele odeia esse fato sobre a interação entre eles - são olhares repletos de significados que ele desconhece, é como se Tyrell pudesse enxergar todas as suas rachaduras e o que há por trás delas. Não, ele não quer isso, obrigado.
Elliot está prestes a mandá-lo pro inferno, mas é surpreendido pelo cigarro sendo removido dos próprios lábios. Os dedos de Tyrell esbarram em sua boca e demoram-se ali, o que ele julga proposital. Tyrell traga o restante do cigarro e a cena é tão surreal – como dois velhos amigos que se reencontram – que faz Elliot rir sem humor, ele não consegue desviar os olhos. Tyrell retribui o olhar, divertido.
- Isso é muito bom. -ele explica balançando o cigarro. - Não fumo desde os dezessete. – a expressão em seu rosto assume um tom amargurado. – Aboli qualquer hábito que não me tornasse quem eu estava destinado a ser.
Elliot acha que encher os pulmões de câncer não é nada para a carreira bem-sucedida de Tyrell comparado com o que eles estão prestes a fazer. Mas não é sobre isso, ele percebe, é o oposto. Tem a ver com se desconectar do passado que Tyrell se preocupa tanto em esconder, linhas que não estão expostas em suas redes sociais e que Elliot não consegue ter acesso, mas algo lhe diz que Mr Robot tem.
Eles permanecem ali, encarando o muro do prédio vizinho por muito tempo depois de Tyrell apagar o cigarro com o sapato. Não há nada para dizer ou compartilhar. Eles não são amigos, Elliot diz pra si mesmo.
Ele não quer esse tipo de intimidade com Tyrell Wellick. E embora Elliot repita o quanto o despreza, seus ombros se tocam conforme respiram e ele se perde nisso, preso a este ciclo interminável.
-Eu sei que não é você. Você não quer isso. – Tyrell confessa como se fosse um segredo dele também e um direito seu compartilhá-lo. Elliot enrijece os ombros e segura a respiração por um instante. - Eu...eu queria que fosse você. – Tyrell murmura antes de se afastar e entrar no prédio abandonado.
Elliot pisca em confusão e aborrecimento para o espaço vazio ao seu lado. Ele precisa que Mr Robot responda suas perguntas, ele precisa de tempo para reverter a Fase 2, de um plano para proteger Darlene. E cigarros. Ele poderia fumar mais meio maço agora. É frustrante. As palavras de Tyrell continuam impregnadas em sua mente e Elliot quer gritar porque há coisas mais importantes para pensar, mas elas permanecem e continuam a se repetir, consumindo-o. Ele tem quase certeza que Tyrell não tem consciência do que disse, mas uma vez proferidas, ele não pode esquecê-las.
"Eu queria que fosse você."
Há essa sensação crescente que inflama seus ossos e arrepia sua nuca, mas é diferente das outras tantas vezes, não é medo ou desconfiança.
Ele não retorna para dentro do prédio.
Foda-se Tyrell, Elliot pensa, foda-se suas ideias fantasiosas sobre o que quer que fosse aquilo.
What a wicked thing to say you never felt this way
What a wicked thing to do to make me dream of you
Quando Tyrell o soca no rosto, é com mais força do que Mr Robot espera. O gosto metálico invade sua boca e ele explode em um misto de êxtase e diversão. Tyrell cai sobre ele e o soca uma segunda e dessa vez seus óculos voam para o piso de marfim.
"Vamos lá, vamos lá. É só isso que você tem?"
Ele não acha que diz em voz alta, mas a expressão de horror no rosto bonito de Tyrell confirma o oposto.
-Cale a boca! Cale essa maldita boca. -ele está tremendo e há lágrimas e vodka em seus lábios.
Sal e vodka. Há um poema sobre isso, Robot lamenta.
Tyrell não volta a socá-lo no rosto, mas não se afasta também e essa decisão torna-se um convite para a tensão que aumenta, é como se virassem a chave - algo muda e estala – eles sabem, sempre esteve presente, apenas aguardando o momento para poder emergir.
Tyrell tem os olhos fixos nele e o cenho franzido como se não soubesse qual parte de si ele deve seguir. Mr Robot é mais rápido, ele o puxa pela gola da camisa e seus narizes se chocam com uma força dolorosa.
-Olhe só para você, Tyrell. Tão louco por atenção e pelo mínimo de afeto que não consegue parar. – ele pode sentir Tyrell duro contra sua coxa e é quase comovente – Você não consegue, não é? – Robot se inclina e seus lábios esbarram descuidados nos de Tyrell, ele o empurra com o quadril e Tyrell suspira de olhos arregalados. – Você quer, mas também não é capaz de continuar porque isso o faria perder o controle. – e quase se torna um monólogo.
Algum detalhe lhe passou despercebido durante esse jogo estranho com Tyrell, o próprio Elliot o iniciou e agora nenhum dos três sabe como terminá-lo.
Tyrell parece sair do transe e se afasta com um empurrão, Robot ri em desapontamento. A porta da cozinha se abre segundos depois e Price surge interrompendo o que quer que fosse aquilo.
I was calling
For the last time
We've been here before
They found the pictures in the snow
I can tell your eyes
Looked beneath the blue
I walk underneath the trees
For the first time
O sangue flui vívido, como uma nascente escura sobre a camisa de Tyrell e o primeiro pensamento de Elliot é que dessa vez eles não terão a mesma sorte, ele confirma isso a contragosto pela respiração irregular de Tyrell, que se aproxima a passos incertos. Ele envolve suas mãos, frias e pagajosas, ao redor do pulso de Elliot, apoiando-se nele. Elliot nem sequer pestaneja, se afasta ou encolhe os ombros, ele parece ter se habituado com Tyrell sempre empurrando as linhas invisíveis do seu espaço pessoal. O ar entre eles torna-se mais denso.
Tyrell abre a boca como se quisesse compartilhar um segredo, mas então a fecha de novo, Elliot deseja que ele continue - que o amaldiçoe ou o culpe - mas Tyrell apenas assente, seus olhos o avaliam preocupados, então descem incerto para os lábios.
Elliot se inclina desejando que ele siga adiante, que ele faça logo.
"Aperte o botão e ultrapasse mais essa linha, seu idiota.", ele quer tanto que dói.
Mas Tyrell não faz, ele lhe oferece apenas um leve arquear de lábios. Um meio sorriso que não diz nada a Elliot, este sorriso não estreita seus olhos azuis como o do tipo megalomaníaco que o acompanha sempre que ele insiste em compará-los a deuses.
-Apenas certifique-se de cuidar da Whiterose, sim? – o rosto de Tyrell se contorce um pouco e não se sabe se é pelo ferimento ou pelo que está prestes a fazer. Ele se afasta relutante e Elliot perde o equilíbrio, tentando se lembrar de plantar os pés.
Ambos sabiam que aconteceria em algum momento, mas parece errado essa noite. Mr Robot permanece silencioso e imóvel ao seu lado, há algo não dito entre eles. Elliot quer que ele tome o controle dessa vez, que Mr Robot impeça Tyrell de alguma forma.
- Espere!! - ele grita - Eu não posso deixar você morrer. – Elliot não sabe qual dos dois está falando, ele só sabe que de alguma forma é errado abandoná-lo. Procurar por Tyrell passou a ser sua maior motivação durante um tempo e agora Elliot está prestes a perdê-lo de novo.
- Está tudo bem. Eu só vou dar uma volta. - e sua voz vacila. Aos poucos, Tyrell torna-se um vulto curvado e cada vez menor na estrada a sua frente. Ele não olha para trás.
Elliot certifica-se de queimar a van e demora-se ali, observando o fogo consumir metal e couro. Ele pensa em Angela e todos os outros mortos que antes disso, ele e Mr Robot corromperam e distorceram até serem apenas um vislumbre das pessoas que eram sem a FSociedade.
Quando Darlene o encontra, eles não conversam muito. Eliot encosta a cabeça na janela do carro um pouco exausto e se perde na visão do horizonte por entre as árvores e a neve que as cobrem.
Eles passam por centenas delas, todas iguais.
Surge a ele a lembrança de Tyrell chorando ao lado de sua cama e das poucas palavras que Elliot havia entendido e as outras tantas que jamais saberia o significado.
Seus olhos ardem e os pulsos formigam com a recordação do toque fantasma, só então Elliot percebe que há sangue em suas mãos.
Parte II – Sua imagem e semelhança
My undivided
Let's change the way we are
We'll have it all, just like before
Hold me close
Guilt and pain has made me honest once again
So can I show you all the lessons learnt now?
How long for the perfect time?
If not now then when? Oh, how long?
No, don't be silent
We can be true again
Ele perde o controle para Elliot - o verdadeiro Elliot – não resta muito para pensar ou sentir a partir dessa decisão além de medo da premissa de ser apenas o fantasma de um homem.
Ele foi real? O que eles construíram para Elliot foi real?
As coisas que eles fizeram, as partes do mundo de Elliot que foram quebradas. Pensar nisso o torna doente, mas ele é impedido por Mr Robot, que parece sentir suas flutuações de humor – ele não deve ser controlado por essas ideias obscuras e Mr Robot está ali para lembrá-lo, assim como o próprio Elliot, ele precisa manter o controle por ele também.
É engraçado apenas observá-lo – há uma janela, uma fina camada de vidro que os separa e o detém – é claro, ele sente o que Elliot sente, mas as sensações lhe atingem de uma forma diferente. Algumas mais amenas e outras tão abruptas que ele apenas aguarda e se prepara para voltar a superfície, mas isso nunca ocorre. Ele espera e espera, mas a janela continua ali - isso é bom - ele acha que deve significar que Elliot está bem, portanto é bom.
Krista continua presente. Ela faz um trabalho incrível com este novo Elliot, ele pode sentir. Eles conversam sobre os planos para o futuro e o novo emprego, mas também sobre seu pai e a Ecorp.
Há dias em que eles visitam o túmulo de Angela, Elliot sempre leva margaridas, eram as preferidas dela. Às vezes, as flores dele estão cobertas por outras, rosas brancas sobre a lápide, eles suspeitam que sejam de Darlene, mas nunca confirmam. Sua irmã não fala sobre Angela, este é o ponto de ruptura dela e Elliot entende.
Seguir a vida.
É justo que Elliot tenha essa chance.
Ele permanece oculto, assim como Mr Robot, a criança e sua mãe. Em alguns momentos no entanto, a coceira atrás de sua nuca surge e o domina. Elliot sabe que ele ainda está aqui?
Ele acha que não precisa dizer a Mr Robot e o tempo não lhe parece linear, mas ele aguarda arduamente por essa sensação de ser perdoado por Elliot para deixar de ser uma ameaça para si e para os outros.
Enquanto isso não ocorre, ele o observa seguir em frente. Elliot gosta de Dipierro e no modo como ela olha para sua irmã. Dominique acha que ele deve sair mais vezes e Darlene acrescenta que “foder alguém lhe faria bem”.
As festas e os bares lotados o torna suscetível a conhecer algumas mulheres e homens também, nenhum deles dura mais que duas noites de diversão.
Ele acha curioso o padrão particular de homens que atraem Elliot – olhos azuis vibrantes e cabelos claros.
Isso o traz para outra questão mal resolvida - a lacuna - e ele não menciona com frequência porque olhar para este abismo é demasiado perigoso.
Veja bem, existe esse palácio mental, um lugar seguro e fácil de ser acessado – ele próprio o criou para proteger Elliot – um mundo em que Tyrell era uma sombra gentil e distorcida da realidade, mas real o suficiente para desviá-lo de uma possível apoptose. Esse plano de fundo entretanto, foi alterado desde que ele voltou e é isso que o perturba: Tyrell não está mais nele.
Talvez seja um lembrete de que algumas circunstâncias são irreversíveis, o que torna sua programação uma brincadeira cruel e a expectativa de ter Tyrell vivo naquele espaço-tempo é assolada. Demora, mas ele compreende porquê isso o atormenta – Elliot desejava encontrar Tyrell nesse lugar para poder ficar dessa vez.
Parte III – Fique
As we are floating in the blue
I am softly watching you
Oh, boy, your eyes betray what burns inside you
O letreiro neon do bar vibra sobre os olhos de Elliot, a música é alta e o força a se inclinar para ouvir o que Jane, sua colega de trabalho, está lhe dizendo. Ele reconhece a canção animada, era a mesma que tocava mais cedo, no apartamento de Darlene. Sua irmã está do outro lado da mesa conversando com Anthony e Dom. De vez em quando, e ele finge não perceber, mas ela lhe lança estes curtos olhares genuínos e alegres, Elliot os guarda para rir dela mais tarde, quando estiverem sozinhos.
Darlene é superprotetora nos primeiros meses, há jantares e filmes às sextas, passeios no parque aos domingos e ligações no meio do dia. É exagerado, mas existe esse pequeno conforto provocado pelo engajamento dela, que força Elliot a permitir e a brincar de casinha. Ele aprecia as tentativas de Darlene em recuperar o tempo perdido entre os dois.
Falta poucas semanas para completar 1 ano desde que tudo voltou ao normal, desde que ele despertou – é assim que Krista nomeou a data. Ela insiste em dizer que foi um ato corajoso e de amor entre ele e todos os outros, mas demora um tempo para entendê-lo dessa forma.
No início, Elliot quis expurgá-los de si, como uma doença instaurada em sua própria mente, pensar no que havia acontecido com Angela alimentou sua reação inflamável.
Darlene foi a chave para a aceitação.
A risada dela quebra seus pensamentos e ele volta ao bar, ela está rindo, quase sem fôlego, por algo que Dom disse. E Elliot se esforça. Ele se esforça para nunca mais perder o controle, para permanecer aqui – com Darlene.
Claire se levanta e pede a atenção de todos, suas palavras são abafadas por gritos e aplausos. Ela tem os olhos embargados em Anthony enquanto suas mãos caem delicadas sobre o ventre que já apresenta um discreto inchaço. Elliot acompanha o movimento das mãos que se abrem sobre a barriga em um gesto de proteção, ele os parabeniza como os outros, mas há algo errado e ele pode sentir crescer cada vez que seus olhos desviam para Claire e seu bebê. Elliot encara o chão coberto de gordura e cerveja, talvez seja a bebida, sua cabeça está explodindo.
Darlene passa um braço por sua cintura e lança a ele um olhar interrogativo.
-Eu estou bem. – mas ela pega a incerteza que repousa nele e seu sorriso morre gradativamente.
O sentimento se perdura e Elliot teme que tenha algo a ver com a data que se aproxima, que seja ele.
Krista confirma suas suposições, o que o torna mais inseguro e assustado.
-Lembre-se que eles são parte de você. Ignorá-los é ignorar a si mesmo.
Ele acha que não consegue, no entanto.
-Isso é diferente, você deseja ficar desta vez. -ela sorri. -Você está no controle agora, Elliot.
Krista afirma que ele deve confiar em Mr Robot e nele - o Mentor.
Demora alguns dias, mas Elliot cede e para de lutar.
Eles estão em seu apartamento, ele pode senti-los ao mesmo tempo que seus pés tornam-se mais leves e incertos sobre o chão, a sensação o apavora – Elliot está prestes a gritar e desistir, mas uma mão o segura no lugar e lhe dá um aperto gentil.
-Está tudo bem. – ele olha para esse homem que é seu reflexo e deixa-se acreditar em suas palavras.
You said you don't have to speak
I can hear you
I can't feel all the things you've ever felt before
I said it's been a long time
Since someone looked at me that way
It's like you knew me
And all the things I couldn't say
Together, to be
Together and be
Voltar a superfície após tanto tempo o assusta tanto quanto a Elliot. Ele observa os detalhes desse novo apartamento demasiado organizado e iluminado, há uma porção de fotos recentes sobre o mural ao lado da cama, uma delas em especial, chama sua atenção. É Darlene – ela está sob luzes vermelhas, ao que parece ser um parque no fundo - sua boca está cheia de sorvete e ela está tentando se aproximar de Elliot para limpar as mãos cobertas de chantilly em sua camisa. Ele sorri com a imagem.
-Vamos lá, garoto. Nós não temos muito tempo. - Mr Robot está ao seu lado, como sempre.
Eles fazem juntos.
Alguns códigos simples, uma pesquisa rápida e pronto. Eles tem um relatório completo sobre Marta e Klaus Gaarder -família de classe média, casados há 6 anos e 7 meses. Ela dá aulas de balé no centro da cidade, enquanto ele escreve romances não muito elogiados pela crítica. Nada incomum além de uma certa compulsão por sapatos de grife e um fanatismo pelo IFK Gotemburgo.
A senha do Instagram restrito de Klaus é um trecho do hino do time de futebol, não demora muito pra eles conseguirem entrar. E lá está - Mr e Mrs Gaarder com seu pequeno primogênito.
Ele acha que o menino tem os traços de Joanna, mas os olhos são inegavelmente os do pai.
Ele deve isso a Tyrell. Certificar-se de que seu filho esteja seguro e tornar Elliot preso a essa criança, mesmo que inconsciente. Ele limpa o computador, mas a memória do pequeno Erik sorrindo para a câmera ainda ecoa em seus pensamentos.
-Temos que voltar. – Mr Robot o lembra.
A presença de Elliot cresce um pouco mais até torná-lo fraco – tudo para por meio segundo - a hesitação é latente, mas ele respira fundo e recua.
Elliot retorna.
Take me with you, take me with you
Or let me follow after you
We can disappear
Eles retornam.
Seus olhos estão abertos e o apartamento desapareceu. A areia afunda um pouco mais sobre a ponta dos dedos e ele percebe tarde demais que está deitado onde as ondas podem alcançá-lo – o céu é um enorme lençol límpido. A parte de trás do seu moletom está molhada e ele tem sal sobre os lábios, é uma sensação boa. Coney Island tem algo de perturbardor e familiar que o faz querer voltar sempre.
Sua mente é assombrada por sorvetes, rodas-gigantes e Darlene. Alguém se ajoelha ao seu lado e ele sabe quem é. Ele quer dizer a Mr Robot que não é o que ele pensa, está tudo bem – ela está bem com Elliot – ele quer isso, ele a ama. No entanto, não é Mr Robot ao seu lado, são outras mãos que envolvem seu rosto.
Ele o reconhece e se vira um tanto descrente, seu corpo treme um pouco. A figura se aproxima mais e se interpõe entre ele e a luz do sol.
Olhos azuis se estreitam e Tyrell sorri.
-Bonsoir.
