Chapter Text
A terra seca mancha seus pés descalços, não há nada além do tom marrom a sua volta. O sentimento de marasmo e desconforto que lhe é contínuo faz com que Jaebum sinta como se tivesse caminhado por toda a sua vida por este caminho.
Era como se não pudesse escolher outra estrada, não havia outra opção, ele seguia em frente, seja lá onde ela ficasse; ele apenas segue.
Não há sol nem lua, entretanto ainda é claro, apesar de não saber de onde vem tal luminosidade. É sempre o mesmo cenário, há marrom para todos os lados, e nada mais além dessa cor abaixo de um céu de azul pálido sem vida.
Jaebum sente-se angustiado, e lágrimas de um sentimento confuso — mas que o faz triste e desesperado — brotam de seus olhos e descem pelo seu rosto.
Jaebum não sabe nem como é o seu rosto mais.
As colinas de terra o rodeiam, e por mais que tente alcançar o topo delas, outras maiores aparecem e bloqueiam qualquer tipo de visão diferente que pudesse ter. Jaebum não sabe porque continua seguindo, andando e tentando; porque nada muda.
Ele não sabe o que está buscando, ou porque busca. Contudo, ele caminha, mesmo quando seus pés falham e ele cai de joelhos no chão macio e estéril. Ele suspira, se levanta e continua.
Ele sente algo dentro de si, pequeno, efêmero, quase inexistente, que o faz seguir, uma pequena chama cor âmbar que o faz continuar a andar, continuar a procurar seja o que for que busque.
Os olhos acostumados ao marrom morto da terra seca que o cerca se arregalam, chocados ao vislumbrar pela primeira vez em anos e anos de caminhada o tom verde. Jaebum enxerga o verde ao longe, um ponto pequeno que mexe com o medo de ser uma miragem e o faz prender a respiração por alguns segundos.
Então, para sua segunda surpresa, após sentir sobre suas costas os anos de caminhada, o seu caminho se divide pela primeira vez em duas estradas. A do seu lado direito segue para o caminho terroso, morto, o caminho que sempre seguiu até então.
Aquele caminho tenta se fazer agradável aos seus olhos como se dissesse que mudanças são inconvenientes, que ele deve continuar onde está, vivendo como está, assim é mais seguro do que arriscar.
O outro à sua esquerda o leva para o ponto verde ao longe, aquele caminho o excita, o chama, lhe convida a mudar, a tentar, a buscar. Aquele caminho parece o prometer que se o seguir encontrará aquilo que ele tanto busca avidamente — mesmo que ele não saiba o que é, mesmo que ele não esteja preparado para saber.
Sentindo sua cabeça latejar, seus olhos arderem e o mundo girar à sua volta misturando o marrom com o vago verde, Jaebum cambaleia, porém se inclina para a esquerda, dando passos trocados e incertos antes de cair no chão e sua mente sair do confortável âmbar para o negro da inconsciência.
✴
Os olhos recém-abertos piscam repetidas vezes até se acostumarem com a claridade do local. Uma pontada de dor lhe atinge o meio das costas ao mover-se e sair da posição incômoda na qual adormeceu.
Uma careta de dor acompanhou o espreguiçar de seus braços e costas, olhou em volta novamente piscando algumas vezes; havia adormecido na biblioteca enquanto concluía a última de suas pesquisas.
Estava levemente surpreso por não ter sido acordado por um dos monitores, afinal, a biblioteca nacional de Seul não era um lugar para cochilos, apesar de ser irresistível a vontade de se debruçar em uma das mesas e aproveitar o silêncio que a cerca junto com o agradável cheiro de livros que tem pelo ambiente.
Os olhos cansados se concentraram em um ponto qualquer em cima da mesa depois de observar a movimentação quase inexistente do local; Jaebum começou a encarar seus livros abertos sem realmente enxergá-los.
Sua mente se perdeu rapidamente no sonho que acabara de ter. Não que procurasse explicação ou um significado para as coisas que sonhava, porém aquele em especial o fazia se sentir estranho. Por anos seus sonhos se resumiram a olhos no escuro; fogueiras com ecos; um deserto infértil com grandes colinas de areia sem vida.
Às vezes Jaebum sonhava com esses olhos; grandes globos âmbares dançando na escuridão, o observando. Não havia som ou qualquer tipo de sensação, era apenas ele perdido no escuro, olhando de volta para aqueles olhos reluzentes que lhe encaravam. Às vezes sonhava com um som; um nome se repetindo como eco na semi escuridão onde uma pequena fogueira iluminava precariamente paredes rochosas e úmidas.
Era um nome que Jaebum desconhecia, mas que lhe trazia a sensação de saudade de algo que nunca teve, algo que ele não conseguia entender. Contudo esses sonhos com ecos ou olhos eram os mais raros, pois para si era mais comum ser assaltado a noite pelos sonhos com aquele deserto morto.
O deserto; Jaebum pesquisou vários deles quando este começou a aparecer há uns anos atrás em seus sonhos. O sonho se resumia toda vez no jovem Im caminhando, sem rumo por um deserto longo e aparentemente sem fim, não havia nada ao seu redor além de terra e colinas de areia.
Sempre caminhando, sempre buscando, ele sabia que procurava por algo, mas Jaebum nunca soube o quê.
Anos e anos se arrastando com estes sonhos estranhos, Jaebum apenas se acostumou a eles, porém aquele que acabara de ter quebrava este ciclo no deserto e isso foi algo que tomou a atenção do rapaz ali sentado entre os livros.
Algo verde quebrou o marasmo marrom da terra e dois caminhos para ele escolher apareceram quando nem mesmo uma estrada a se seguir tinha antes. Aquilo queria dizer algo?
Tentando se desapegar de seus pensamentos naquele momento, Jaebum balançou freneticamente sua cabeça, fazendo os cabelos rubros se desalinharem e a franja ruiva cair sobre seus olhos. Afastou os fios voltando a atenção para suas anotações, havia progredido o suficiente para se dar por satisfeito, entretanto não conseguia se forçar a continuar tentando traduzir os rabiscos daqueles pergaminhos quase apagados.
Com cuidado, encaixou-os um a um com zelo invejável nas pastas que condiziam com cada tema daquelas folhas soltas. Jaebum encarou o livro grande de aparência antiga e capa surrada ao lado das três pastas que alinhava sobre a mesa. Gostaria de ter cópias daqueles escritos, talvez se conversasse com seu tutor.
"Ainda por aqui, Jaebum?" A voz que o chamou continha um coreano com acentuado sotaque, o rapaz virou-se em direção a voz conhecida e acenou para o homem parado atrás de si.
Jaebum observou seu tutor. Cabelos negros e curtos, olhar severo no rosto enganosamente jovem — aquele homem era uma década mais velho que si. As roupas em terno negro lhe deixavam com uma aparência mais séria do que realmente era. O Im, apesar de admirá-lo, ainda não sabia se gostava da forte presença que o mais velho tinha.
"Professor" cumprimentou, curvando-se levemente para o mais velho que se aproximou observando os manuscritos e o livro na mesa.
"Este é o conteúdo em que está trabalhando para o museu?" O mais velho perguntou, apontando para o caderno onde Jaebum mantinha as anotações sobre suas pesquisas. Rapidamente o Im permitiu que seu tutor avaliasse as informações colhidas.
O sentimento de retorno aos tempos de faculdade onde apresentava qualquer trabalho para o mais velho o invadiu; era a nostalgia da insegurança e necessidade de aprovação daquele que admirava.
"Obrigado por permitir que eu visse sob seu nome, não acredito que deixariam um recém-formado ter acesso a estes documentos" O mais novo comentou enquanto observava seu tutor folhear seu caderno.
Com o arquear de uma das sobrancelhas, o mais velho tirou seus olhos das linhas escritas e fitou seu ex-aluno.
"Não seja grato por isso Jaebum, você trabalha para mim, e suas pesquisas requerem fontes confiáveis, não podemos fornecer informações desencontradas e sem fontes seguras para nossos clientes" O docente recolheu uma das canetas ainda soltas a mesa e fez pequenas anotações pela lateral da folha escrita "Além do mais, você já está fazendo seu caminho, que no caso, acredito que logo será trilhado longe daqui".
Aceitando o caderno e rapidamente passando os olhos pelo que o mais velho escreveu, Jaebum voltou seus olhos para a figura impassível a sua frente.
"Eu não estava com planos de sair de Seul tão logo".
"Eu sei, mas realmente preciso que faça isso por mim, preciso que organize tudo o que lhe pedi".
"Pelo tamanho do acervo, professor, não terminarei antes de seis meses. Seria mais rápido se mais alguém fosse comigo".
"Jaebum, tenho artigos de valor dentre aqueles, não posso confiar a qualquer um isso, fora que você é o único qualificado o suficiente para manejar e organizar aqueles livros, nem mesmo eu tenho tanto cuidado" o mais velho disse com um sorrisinho, deixando o ruivo desconfortável pelo elogio.
Ele não tinha muito o que contradizer, livros eram realmente tudo o que mais gostava, e a ideia de organizar uma biblioteca enorme com diversos desses itens, todos contendo seus assuntos mais adorados, era tentador demais para recusar, mesmo que para isso precisasse se perder em algum tipo de fim de mundo.
Vendo que por hora o mais novo não tentaria mais o convencer de declinar do que já havia sido programado, o mais velho voltou sua atenção ao caderno em mãos.
"Porém, antes de continuarmos a falar disso, creio que seria melhor você finalizar seu trabalho".
"Eu terminei o encaixe das informações" o mais novo apontou para o notebook desligado ao lado das pastas "Agora preciso passar a limpo o projeto, então está quase finalizado".
"Quando sua proposta estiver pronta, me encaminhe; vou revisá-la antes de passarmos para o museu. Qual o prazo?"
"Temos até sábado para aplicar".
"Então eu quero o arquivo na quinta-feira" soltou com um mínimo sorriso desafiador nos lábios "Sábado falaremos sobre a sua mudança e qualquer outra coisa que ainda precise ser ajustada, por agora concentre-se nisso" deu duas batidas no caderno antes de se afastar.
Jaebum se curvou novamente ao observar o mais velho se afastar por entre as mesas de estudo, viu-o caminhar em direção ao elevador que lhe levaria para seu escritório em uma das salas nos níveis superiores.
Dando as costas para o caminho que o outro havia seguido, Jaebum suspirou cansado e observou ao redor até encontrar um dos monitores e acenar para ele. Guardou seus pertences na mochila e após alguns minutos seus pés o guiavam para o lado de fora do grande prédio de arquitetura moderna e paredes espelhadas.
Sentindo o vento fresco e noturno da primavera trazer consigo o cheiro doce das cerejeiras, o Im desceu os degraus da entrada e caminhou entre as árvores de copa rosada que se abriam em um caminho até o final da rua.
A lua cheia despontava no negrume do céu, Jaebum estremeceu por alguns segundos ao encarar o satélite natural tão fixamente. Algo nela sempre o havia atraído, seja de forma científica ou mística, e se ruivo fosse supersticioso diria que a lua era seu item de sorte.
